quarta-feira, 28 de abril de 2010

As melhores coisas do mundo – As razões pelas quais envelhecer



Com a mesma direção cuidadosa de “o bicho de sete cabeças”, o filme aborda as questões tipicamente adolescentes de sempre no contexto da cybercultura que marca a geração atual. Escapa, porém, ao lugar-comum de filmes dessa temática ao colocar tudo em cena, tal como ocorre no “turbilhão adolescente”, e com enredo e atuações totalmente naturais. Isso se deve em parte ao fato de o enredo ter sido escrito em colaboração com estudantes adolescentes, que puderam contar as suas experiências e opinar nos diálogos e situações que compõem o filme, e os atores serem realmente adolescentes (e não adultos se passando por adolescentes) que fizeram uma quase que interpretação deles mesmos – inclusive, com margens para improvisações. O resultado disso tudo é um filme que muitas vezes parece mais com um documentário sobre o cotidiano escolar do que com um filme propriamente dito. 


A trama gira em torno das experiências de Mano, um adolescente de 15 anos que sofre a pressão para perder a virginidade (com direito a ida ao bordel para apenas ficar conversando com a prostituta), tem um amor platônico (obviamente não-correspondido) pela garota mais popular do colégio, vivencia o trauma da separação dos seus pais, a descoberta do cigarro, álcool, drogas e festas, é bastante ligado à família (inclusive ao irmão mais velho e depressivo), tem que lidar com o homossexualismo do pai, pratica e é vítima de bullying, cyberbullyng, acaba e inicia amizades,... Enfim, é o famoso “turbilhão adolescente”, com todas as situações e carga emotiva a que tem direito. Com tantos dramas em cena, o filme tenderia a ficar pesado ou, no mínimo, cansativo. Porém, a narração sob a ótica de um adolescente dá certa leveza às histórias, inclusive com várias tiradas muito engraçadas. 

Cada um dos dramas que atravessa o filme daria, por si só, um filme sobre. Porém, o olhar adolescente é limitado e faz com que os assuntos não evoluam muito, sejam apenas situações pouco elaboradas – dentro das limitações da análise crítica típicas da adolescência. O filme, portanto, não é sobre homossexualismo, divórcio, bullying ou coisa do gênero; é sobre o olhar adolescente sobre elas. Isso torna o filme menos denso, mas mais original e contemporâneo. 

Li alguns comentários sobre este filme que afirmavam que o filme despertava um saudosismo de situações com as quais nos identificamos e gostaríamos de reviver. Admito que a identificação deva estar presente, em maior ou menor grau, para quase todos aqueles que assistirem, mas “saudosismo”? Quem sente saudades de tempos tão horríveis? Antes fosse a infância, tempos de descomprometimento e descontração totais, mas a horripilante adolescência? Ter que lidar com todas as intrigas sem sentido, bullying, incertezas e fazer tempestades de gotas d’água não é exatamente o que entendo por “bons tempos”. Mas a geração atual quer prolongar a adolescência ao máximo – se possível, eternamente. E quando me refiro à “geração atual”, não me reporto somente aos trintões que preferem o conforto da casa do papai a ter que cuidar das suas roupinhas, pois é um erro limitar adolescência ou o prorrogamento da adolescência à dependência financeira. Afinal, nem só de força de vontade se faz dinheiro para sobreviver. Os adolescentes por tabela de quem falo são aqueles adultos e idosos que (independentemente da situação financeira) vivem como se nunca tivessem saído da adolescência – ou tivessem saído e voltado por escolha própria. Alguns acham que essa extensão da adolescência se limita às aparências e pequenas ações (as partes mais perceptíveis). No entanto, essas ações vêm acompanhadas de sentimentos, do modo adolescente de lidar com o mundo – busca pela adrenalina, sentimentos à flor da pele, explosões emocionais, egocentrismo e (por que não?) certa irresponsabilidade típica de quem ainda não sabe bem o que faz. Se a idade traz maturidade, eleva o nível do pensamento, traz sabedoria, bom-senso, clareza sobre as questões, moralidade,... por que não (querer) usá-los?

Vale lembrar que embora a efemeridade seja característica típica da juventude, não são os jovens os principais responsáveis pela liquidez que marca as relações dos tempos modernos.

0 comentários:

Postar um comentário