Este filme não figurava a lista das minhas preferências para assistir. De fato, já estava saindo de cartaz quando, por ausência de outro melhor, resolvi dar-lhe a chance de provar que pode ser bom. A maioria das críticas profissionais e amadoras de “Educação” retratavam-no como um filme repleto de clichês. E, convenhamos, é difícil fugir aos clichês com o enredo proposto. A trama, ambientada na Inglaterra em 1960, é sobre uma adolescente (Jenny) de família rígida que estuda arduamente para ingressar na Oxford e poder, assim, se libertar das amarras dos pais para viver o seu sonho libertino em Paris. Eis que surge David, um sedutor homem mais velho, que abre as portas para o mundo das artes, cultura e diversão pelo qual ela tanto ansiava. Entra em cena o previsível dilema: seguir uma educação rígida para depois poder curtir a vida ou encurtar o caminho? Moral da história: Jenny resolve encurtar o caminho, não dá certo, volta atrás e resolvi fazer tudo como manda o figurino (com direito à negação completa da sua época de desvirtuamento moral). Sim, à primeira vista, parece um filme clichê feito para dar lição de moral nos jovens. Porém, uma análise mais cuidadosa, atentando para alguns detalhes que podem passar desapercebidos mas que estão lá por algum motivo não tão explícito quanto a “aparente lição de moral”, pode facilmente transformar o perfil do filme para uma crítica social.
Jenny critica o modo burguês de viver. Jenny quer viver como uma francesa, livre para fazer o que bem entender como e no momento que desejar, sem responsabilidades a cumprir e regras burguesas a seguir. Fica evidente na fala de Jenny que ela deseja viver como os “existencialistas franceses” – embora não coloque desta maneira: Jenny quer ir à Paris e lá vestir-se sempre de preto e freqüentar bares de Jazz todas às noites, além de viver rodeada de obras de arte. Esse era o estereótipo de Jean-Paul Sartre e Simone de Beauvoir, que faziam um enorme sucesso na época não somente devido aos seus escritos como também a esse modo de viver que contrastava com o estilo burguês. Quando se consegue fazer esse link, fica claro que o que está em cena é uma escolha tipicamente adolescente daquilo que se quer ser, um desmontar do projeto dos pais e construção do seu projeto. Porém Jenny, como toda adolescente, não parte do nada na construção da sua identidade, mas sim de outro estereótipo, símbolo da rebeldia na época. Os desejos de Jenny são tipicamente adolescentes, pois Jenny é somente uma adolescente, e apesar de suas leituras e de sua inteligência, ainda não está apta a viver fora de estereótipos, a se individualizar, se diferenciar do resto da sociedade. Jenny parece conhecer bem o estereótipo burguês (pois é empurrada para ele a todo instante), sabe bem da angústia que é ter que abrir mão de fazer o que se deseja para seguir um código de conduta pré-determinado e acha que o modo de viver existencialista a libertará dessa angústia. Ignora, portanto, um dos pontos centrais do existencialismo que é a angústia de ter que escolher o tempo inteiro (já que não há caminho pré-determinado a seguir), sendo plenamente responsável pelas suas escolhas e as conseqüências destas. Não, Jenny não conhecia o que desejava, era apenas uma garota que queria se libertar das amarras da sociedade. Jenny queria viver fora do “teatro burguês” entrando no “teatro existencialista” – não seria livre, não se individualizaria, continuaria a representar o papel de um ser superficial – que não guarda muitas semelhanças com o existencialismo real, diga-se de passagem. É curioso notar que os anos passam, os ídolos da rebeldia juvenil mudam, mas o que está em cena é sempre uma busca pela liberdade desmedida.
David parece ser a personificação dessa liberdade. Com mais de 30 anos, David não tem rumo certo a seguir, é um andarilho errante, sem responsabilidades e em busca de diversão e de viver em alto estilo. Jenny encanta-se de imediato, como era de se esperar. Logo surgem oportunidades de diversão que competem temporalmente com o rígido esquema de estudos de Jenny para ingressar em Oxford. Jenny logo abre mão dos estudos, porém a surpresa é quando o seu rígido e conservador pai autoriza uma viagem de um final de semana com David e, mais, quando os pais aconselham Jenny a abdicar dos estudos e aceitar o pedido de casamento. Este último fato é vivenciado com surpresa e revolta pela própria Jenny, que entende então que o que eles realmente desejavam era um bom casamento para a filha e não uma boa educação (tal como afirmavam). A educação seria apenas o meio mais provável de atingir o objetivo final. Jenny se revolta por saber que todas aquelas privações e rigidez com os estudos era somente para conseguir um marido rico, quando para tanto bastaria sair à noite. O pai retruca tal comentário perguntando: “Ele se apaixonaria por você se você fosse burra?”. Então Jenny entende como as coisas funcionam. Neste ponto é interessante notar como é difícil perceber algumas práticas que marcam a sociedade quando se faz parte dela. Mandar a filha para uma universidade bem conceituada era um jeito quase certo de lhe arrumar um bom casamento, entretanto Jenny ignorava o objetivo real da sua educação e achava que era apenas para tornar-se mais inteligente, culta e ponto final. Naquela época, educação para o conhecimento era educação para casamento, como Jenny pôde não perceber? Por trás dos seus cigarros importados e do seu conhecimento sobre artes, Jenny era só uma adolescente ingênua.
E foi com ingenuidade que Jenny deixou-se levar por David, um conquistador que na primeira olhada qualquer pessoa minimamente experiente dirá que é encrenca. David passa a primeira metade do filme sendo uma figura misteriosa: possui um carrão, boa aparência, freqüenta os melhores locais, aparentemente não trabalha e não tem nenhuma amarra. Com a liberdade e os mundos nas mãos para oferecer, Jenny logo se encanta por ele. O encantamento cresce à medida que Jenny vai sendo apresentada a esse mundo. Nem mesmo a descoberta de que David vivia às custas de furto de produtos de valor abala o encantamento de Jenny. Ela fica chocada com o fato, chora discretamente e apronta-se para ir embora, porém com pouquíssimas palavras David a convence a ficar. Nesse ponto Jenny não está mais ingenuamente apaixonada por David, pelo contrário, ela sabe da imoralidade da qual ele tira o seu sustento, pensa por um segundo e conclui que vale a pena ignorar para continuar tendo acesso ao glamour. Jenny opta por colocar de lado a sua moral e se entrega completamente a David e ao seu estilo de vida. Percebe-se que Jenny, apesar de toda a rigidez educacional imposta pelos pais e pela escola, não teve um desenvolvimento moral satisfatório. O que se coloca em cena neste momento é que educação moral não é sinônimo de transmissão de conhecimentos na escola ou rigidez disciplinar em casa – e esse é um problema que nos é contemporâneo. Ainda hoje ficamos presos no debate construtivista sobre educação com “heteronomia moral” e com “autonomia moral” e não sabemos bem como facilitar/instigar o desenvolvimento moral infantil. O caminho do meio ainda é um tanto quanto obscuro. Como educar um filho de forma que ele tenha autonomia moral para distinguir o ético do não-ético e opte pelo ético (como não furtar, no caso do filme, um ato convencionalmente imoral desde sempre) ainda é uma incógnita.
Cabe ressaltar também que David não seduz somente a ingênua Jenny, como também os seus pais que facilmente se convencem que um relacionamento com o rapaz rico é o melhor para a sua filha única. Em nenhum momento a chegada de David à família é vista com desconfiança, em nenhum momento os pais de Jenny procuram conhecer melhor David, pelo contrário: eles celebram a chegada de David como aquele que os livra do ócio de seus dias. Os pais, assim como a filha, ficam absortos no clima descontraído e divertido que David provoca, ele representa uma fuga da realidade que querem agarrar. Novamente a temática é bastante atual, pois “diversão sem limites” é o lema da juventude hoje em dia e recentemente este lema tem sido associado também à terceira idade, que deseja viver a sua juventude tardiamente.
No fim do filme, Jenny descobre que David é casado. Ocorre, enfim, o choque com a realidade. Jenny pode ignorar a sua cumplicidade em furtos, mas não pode ignorar a outra família de David. David covardemente sai de cena e cabe a Jenny contar a seus pais que David é casado e que ganhava a vida ilegalmente. A menina parece acordar de um pesadelo e é interessante notar que isso não ocorre com a descoberta dos furtos, mas, sim, do matrimônio. No final das contas, Jenny sabia que David ganhava a vida com mentiras e trapaças, mas somente quando foi vítima das suas mentiras Jenny se importou verdadeiramente. Isso reflete a tendência humana à indiferença do mal causado a terceiros. Somos muito mais tocados quando o mal nos aflige ou aflige a pessoas próximas a nós do que quando ele atinge somente a pessoas desconhecidas. Apesar dos seus 16 anos, Jenny ainda age como uma criança para a qual uma ação é considerada moralmente correta se ela causar prazer ou satisfação das suas necessidades pessoais. Enganar os outros pode, enganar ela não pode.
A cena em que o pai de Jenny assume seu erro de julgamento também merece ser mencionada, pois há um momento em que o pai divide a culpa com a menina, quase que culpando a filha pelo seu próprio erro. O pai afirma que confiou em David porque a menina não imaginava que a menina mentiria para eles, principalmente de forma tão grave. O pai coloca que uma vez escutou no rádio uma informação que colocaria em dúvida outra informação dada pela menina e pelo David e, ao invés de duvidar da informação da sua filha adolescente apaixonada e do desconhecido, resolveu colocar em xeque a informação transmitida pelo rádio. Porém, se lembrarmos do comportamento do pai frente aos outros pretendentes da filha ou à própria filha antes do surgimento do David, vemos claramente que o pai não tinha por hábito depositar confiança cegamente na sua filha ou nos seus pretendentes. O outro pretendente mostrado inclusive possuía também o espírito aventureiro de David, era judeu igual ao David, igualmente atencioso com Jenny como era o David, parecia ser mais honesto que o David e não tinha tanto dinheiro quanto o David. Aí está a chave para o entendimento da súbita mudança de comportamento dos pais: para além do inegável carisma do David, há a questão financeira que é muito bem pontuada no início do filme (como pagaremos a faculdade de Jenny? Como pagaremos um professor particular para Jenny melhorar suas notas e, assim, ingressar na faculdade?), mas depois do aparecimento de David sai completamente de cena. Portanto, o tratamento diferenciado à Jenny com David se deveu ao carisma de David e a confiança do pai em Jenny ou ao fator financeiro? Novamente temos uma temática atual indicada nesse filme que retrata 1960 – a sociedade não progrediu tanto assim...
Diante do fracasso do seu noivado, Jenny resolve, por conta própria, voltar a estudar para a faculdade, entra na Oxford e a cena final é ela e um rapaz que conheceu na Universidade passeando pelo campus de bicicleta, felizes tais qual num comercial de margarina. Tudo acompanhado da narração em off de que aquilo tudo sobrevive graças à mentira, que ela nega o que viveu com David, nega parte da sua história. Essa narração em off contrastando com a imagem idílica é que deixa claro que o filme não é maniqueísta como o acusam de ser. Na verdade, não houve um final verdadeiramente feliz, o que acontece é que, ao ver fracassar a sua tentativa de encurtar o caminho para a diversão, não resta outra escolha à Jenny a não ser o caminho mais certo, burguês. Não que Jenny se contente com ele, na verdade ao final Jenny descobre que não importa se ela escolhesse o estilo burguês tradicional ou o libertino de David, ela viveria em uma mentira, uma vida de aparências. Ela já sabia (por experiência própria) que o mundo burguês tradicional se constituía de aparências, era um teatro bem montado. Porém ela descobre que o mundo de diversão tal como ela o conheceu também o era, tanto que ela afirma aos colegas de David, após criticar o silêncio deles sobre a dupla vida do ex-noivo: “parece que vocês vivem em um mundo de mentiras, nada disso é real”. O filme seria maniqueísta se ele demarcasse bem que um dos lados é ruim e o outro é bom, porém não é isso que acontece. Na verdade o filme acaba com uma questão em aberto: se a vida de libertinagem de David é uma mentira e a burguesa clássica também, como se vive uma vida de verdade? Não há, portanto, uma lição de moral (“não escolha o caminho mais fácil, não minta para os seus pais, etc, etc, se não você se dará mal?), há sim uma problemática a se pensar, pois se os comerciais de margarina mostram uma felicidade constante, os símbolos da liberdade e diversão mostram liberdade e diversão constantes, porém nenhum dos casos é real. O mundo não é preto e branco como Jenny pensava.
Resumo da história: há clichês, mas também há boas e atuais questões que atravessam o filme – elas não estão tão bem demarcadas (é fato), mas um bom observador conseguirá captá-las. E certamente não é um filme para adolescentes, pois adolescentes não conseguirão captar a complexidade das temáticas abordadas e aí, sim, o filme parecerá um maniqueísmo sem fim repleto de clichês com um enjoativo final feliz.




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