Neste final de semana eu fui ao cinema assistir ao filme “Chico Xavier”, que fala sobre a vida do mais popular médium brasileiro. O filme conta a história de Chico desde criança até a morte, mostrando o impacto que as suas experiências mediúnicas tiveram em sua vida. Era de se esperar, portanto, que houvessem muitas cenas de manifestações mediúnicas. Mas ainda assim algumas dessas cenas me impressionaram, tal como uma em que entram na sala da sessão 3 mulheres acorrentadas, se debatendo, falando qualquer coisa sem sentido, e o Chico Xavier aplica suas técnicas de despossessão para "acalmar os ânimos". Que loucura!
“Loucura”?! Afinal, loucura ou mediunidade?
Essa foi a grande questão que ficou martelando na minha cabeça durante boa parte do filme. Algumas cenas que trazem manifestações mediúnicas trazem também um comportamento muito semelhante ao que corriqueira e clinicamente se chamaria de “transtorno mental”. No mínimo, uma dissociaçãozinha.
Realmente fiquei muito intrigada para achar uma linha que delimite com clareza, precisão, o que é transtorno mental e o que não é – tomando como objeto de análise as cenas do filme. O termo dissociação me ocorreu quase o filme todo. Afinal, ações nas quais o indivíduo assume subitamente um outro “eu” só podem ter origem na dissociação. Aliás, o próprio DSM-IV (o pai dos transtornos mentais) reconheceu o impacto que as manifestações espirituais possuem nos diagnósticos ao mencionar que "os indivíduos com Transtorno Dissociativo de Identidade podem ser distinguidos daqueles com sintomas de transe e de possessão que seriam diagnosticados como Transtorno Dissociativo Sem Outra Especificação pelo fato de que os indivíduos com sintomas de transe e possessão tipicamente descrevem espíritos externos ou entidades que entraram em seus corpos e assumiram o controle". (E, com muito esforço e pesar, vou me ater de comentar a obsessão da psiquiatria de classificar tudo como uma patologia específica).
Cabe destacar que a inclusão de manifestações religiosas no roll de distúrbios mentais não é recente. No final do século XIX, época do boom da doutrina espírita, muitos médicos descreveram as manifestações espirituais como sintoma de doenças. Myers já nesta época afirmava que os movimentos automáticos inconscientes dos quais resulta a psicografia era, na verdade, dissociação do eu. O mesmo pensamento é encontrado de maneira mais aprofundada em Janet, que equiparava a mediunidade à histeria e ao sonambulismo hipnótico para mostrar a "indubitável" desagregação da percepção pessoal e a formação das várias personalidades (independentes entre si) presente nos médiuns. Duhem, de forma bem mais ácida que os demais, classificou os médiuns em três categorias: os fraudulentos, os insanos e os mentalmente degenerados. Ballet de alguma forma diminui a tensão ao afirmar que todos os médiuns eram dissociados, porém apenas alguns deles cruzava a linha da insanidade. Seguindo a mesma linha, Lévy-Valensi não considerava a mediunidade necessariamente patológica, mas afirmava que os médiuns poderiam ter predisposição que permitia facilmente cruzar a fronteira da insanidade, produzindo o que ele chamou de delírio espírita, que se expressava após longo período de prática da mediunidade.
É interessante notar que a possível confusão entre transtorno mental e mediunidade também foi lembrada pelo próprio Alan Kardec. Kardec realizou um detalhado estudo sobre as alterações da sensopercepção, no qual afirma que muitos imaginam ser mediunidade o que é apenas fruto de um processo de imaginação (distorções de percepção) ou alucinação, sendo por isso necessário algumas vezes duvidar da palavra dos que dizem ver os espíritos. As aparições ou visões verdadeiras seriam fruto de uma real percepção espiritual e trariam informações até então desconhecidas pelo indivíduo.
Desde o surgimento do espiritismo inúmeros estudos científicos tem sido realizados buscando não só a verificação da autenticidade dessas manifestações como também o entendimento desse fenômeno (e a dita "loucura" é sempre lembrada neste ponto). Em 2004 foi feita uma pesquisa com 115 médiuns espíritas brasileiros, e em apenas 12 foi identificada uma provável psicopatologia (inclusive o transtorno de identidade dissociativa). Assim, pôde-se concluir que a mediunidade não se associa a transtornos mentais. Aliás, tem-se reconhecido que a maioria dos estados dissociativos não é patológica, podendo ter impactos positivos sobre o indivíduo (tais como nos religiosos). Em pesquisas experimentais com grupos de espíritas, a combinação de tratamento terapêutico comportamental com sessões mediúnicas teve um melhor resultado do que a terapia comportamental, somente. Mas novamente vale lembrar que é preciso ter muita cautela quando se lida com ditas "manifestações mediúnicas".
É fato que "mediunidade" e transtornos dissociativos possuem muitas características em comum na forma de se apresentar, e é fato também que muitas pessoas (sobretudo aquelas que cobram por seus serviços - e que certamente não possuem transtorno dissociativo algum) se passam por médiuns e dizem um monte de coisas totalmente genéricas ou deduzidas a partir de informações que o falso médium (vulgo charlatão) já possuía. Mas há também aquelas pessoas, como Chico Xavier, que nos surpreendem, sem nunca nos ter visto sabem de coisas as quais nunca compartilhamos com ninguém. Não importa o nome que se dê ao fenômeno ou seu agente, tampouco importa as explicações científicas ou filosóficas, fato é que para a maioria das pessoas esse ato é, sem dúvida, sobrehumano. Espíritos? Talvez. Mas que há algo de diferente e misterioso nessas pessoas, há. Afinal, que tipo de ser humano conseguiria escrever mais de 400 livros em uma só vida?
PS: Para saber mais sobre mediunidade e psicopatologia, vale a pena ler o trabalho de Alexander Moreira de Almeida, que buscou fazer um levantamento bibliográfico com os três lados da história: as explicações espíritas, psicológicas/psiquiátricas e o conteúdo revelado pelas recentes pesquisas de campo.

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