Confesso que há muito já me cansei de filmes de guerra. Para mim, bombardeios, gente morrendo, soldados feridos constituem elementos aversivos em quase todos os filmes. Porém, apesar de o enredo de “O mensageiro” ser atravessada pela situação de guerra, esse certamente não é um filme de guerra. É um filme sobre as conseqüências da guerra, num âmbito tão intimista como nenhum outro que eu lembre. Entre os muitos personagens envolvidos na guerra (combatentes, estrategistas, equipes de apoio médico, políticos, etc), escolheram aqueles que eu jamais havia pensado com o mínimo cuidado sobre: os mensageiros das notícias de morte aos familiares.
Uma das questões abordadas no filme é o treino para a desumanização dos mensageiros no ato da entrega das mensagens. O jovem soldado Will volta da guerra do Iraque ferido e com mais três meses de serviço militar a cumprir. É remanejado para a divisão de notificação de baixas de militares no front a familiares, onde atuará junto ao experiente sargento Stone. O sargento Stone fornece uma série de regulamentos precisos e minuciosos sobre como ele deve se portar ao comunicar a morte:
o Sempre comunicar somente à pessoa mais próxima (PMP) do combatente falecido.
o Nunca comunicar antes do café-da-manhã (“é indigesto”).
o Nunca parar o carro na frente da residência da (PMP), para evitar a angústia de ver dois oficiais do Exército fardados saindo do carro e caminhando até elas (o que, quando se espera notícias de um parente que serve na guerra, é interpretado como um mau sinal).
o Nunca se envolver físico ou psicologicamente com a PMP (“lembre-se que não é você quem está falando, é o porta-voz do Ministro de Defesa, é o Ministro quem fala”).
o Ater-se ao texto (algo como “o Ministro de Defesa expressa seu pesar pela morte do sargento X, morto em combate no dia tal, à tantas horas. Fulano entrará em contato em breve para fornecer as demais informações necessárias. O enterro será preparado pelo Exército. Caso necessite te alguma informação a mais ou de serviço psicológico, entre em contato com o Exército”).
o Siga o protocolo e tudo vai dar certo.
Will a princípio menospreza a tarefa que lhe foi imposta – afinal, qual pode ser a dificuldade para alguém que serviu em guerra comunicar a morte de alguém? Entretanto, logo percebe que a tarefa é bem mais complicada do que parece. Afinal, "Não há 'clientes satisfeitos' nesse trabalho", conforme afirma o sargento Stone.
Neste ponto, o filme nos faz pensar sobre as dificuldades em comunicar más notícias, sobretudo quando elas fazem parte das suas atividades profissionais. A notificação de morte aos parentes é uma tarefa que requer preparo para tanto, não dá para se pensar na hora no que fazer, no que falar. Uma palavra, um gesto equivocado pode ser o suficiente para desencadear uma manifestação descontrolada de luto.
Pode-se pensar que o rígido protocolo que prega um afastamento total dos mensageiros frente aos enlutados é muito exagerado e desumano. Mas, convenhamos, um afastamento é necessário. Afinal, será insustentável para alguém cuja profissão o obriga a comunicar diversas mortes por dia se envolver emocionalmente com todos os que notificar. Além de ser uma situação de desgaste emocional intenso, eventualmente o profissional acaba revivendo alguma experiência sua de luto ou é levado a se colocar no lugar do outro e imaginar (e vivenciar emocionalmente) como seria a sua reação se fosse você o notificado. Porém, como demonstra o sargento Will, afastamento emocional não é sinônimo de frieza absoluta: é possível você ser solidário com a dor do outro sem ser consumido por essa mesma dor. É possível ao profissional levar junto com a triste notícia algum conforto sincero que torne um pouco menos insuportável a dor do enlutado ao ser comunicado. Contudo, o comportamento “Foda-se o protocolo. Eles são seres humanos. São apenas pessoas.” não pode ser instantaneamente assumido por todos, pois ser solidário sem se envolver não é uma tarefa possível para muitos – que precisariam de um intenso trabalho psicológico para desenvolver essa habilidade.
A outra grande questão do filme reside na ética entre militares. Se o relacionamento entre um militar e a ex-esposa de outro já é tido como quebra da regras implícitas de conduta, quem dirá se envolver com a viúva de um militar. Pois é exatamente isso que acontece: o sargento Will acaba se envolvendo afetivamente com uma viúva a quem ele próprio notificou a morte do marido. Basta lembrar que uma das regras entre amigos é não se relacionar com ex de amigo e levar isso para dentro das corporações militares (onde a confiança no outro deve atingir casos extremos, onde se pode colocar a sua vida nas mãos dele) para entender como essa transgressão moral pode atingir proporções gigantescas. Entretanto, esse drama não é muito bem explorado pelo filme, que acaba se perdendo em cenas bonitas, realistas, mas desnecessárias à trama, de um início de relacionamento.

Esse eu nunca vi! (*buscando filme por torrent)
ResponderExcluirParece ser interessante. Fica aqui minha dica então: não sei se você conhece um filme chamado "Jarhead". Ele conta a história de um jovem fuzileiro na primeira Guerra do Iraque. Então você me diz, "Po, um filme de guerra! Outro? E ainda por cima sobre a Guerra do Iraque?" Pois é.. mas esse é do Sam Mendes, que diretor de Beleza Americana, Foi Apenas um Sonho. Ele é profissional quando o assunto é dar na cara da sociedade americana. rs rs rs.. Então você pode imaginar que esse filme não é nada convencional do que se espera de um "filme de guerra". Fica a dica. :D
Beleza!
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