segunda-feira, 5 de abril de 2010

A onda




Há algum tempo atrás, numa aula de Didática (disciplina obrigatória do curso de licenciatura), fui obrigada a assistir o filme “A onda” (1981) para aqueles tradicionais debates após o filme.

O curto filme, produzido para televisão, é baseado em fatos reais (cujos relatos mais detalhados infelizmente ainda não encontrei). Em 1967, numa escola secundária norte-americana, em Palo Alto, Califórnia, um professor quis mostrar como a ideologia facista foi implantada na Alemanha pré-guerra, experimentando com seus alunos as idéias de poder pela disciplina e pela comunidade. Resultado, uma onda fascista envolveu o colégio, tendo um desfecho trágico.

O filme tem início com um professor de história explicando aos seus alunos o contexto histórico da Alemanha de 1930 e a ascensão do regime nazista. Diante dos questionamentos de alguns alunos sobre como poderia o povo alemão, um povo tão culto, atender aos apelos de uma ideologia tão perversa, o professor se motiva para realizar uma dinâmica de grupo e experimentação cientificamente descontrolada que consiste em reproduzir, numa sala de aula repleta de adolescentes, alguns dos clichês nazistas: usariam o slogan “Poder, Disciplina e Superioridade”, um símbolo gráfico para representar “A onda”, a coação social, etc..

O professor Ross se declara o líder do movimento, exorta a disciplina e faz valer o poder superior do grupo sobre os indivíduos. Os estudantes o obedecem cegamente. Uma tímida recusa de um aluno o obriga a conviver com ameaças e exclusão do grupo. Em pouco tempos, a escola inteira é envolvida no fanatismo de “A onda”, até que um casal de alunos mais consciente alerta ao professor sobre a falta de controle da experiência pedagógica, que se transformou em realidade no cotidiano escolar. O desfecho do movimento é dado pelo professor ao desmascarar a ideologia totalitária sob a qual estão vivendo entusiasticamente os alunos.

Bem, após assistirmos ao filme nos foi solicitada a formação de dois grupos: aqueles que concordam com o método do professor para ensinar o conteúdo e os que se opõem a este método. Imediatamente pensei que o debate seria irrealizável, pois não haveria um grupo a favor da metodologia empregada para contra-argumentar. A professora indicou que os que fossem a favor deveriam ficar do lado direito (onde eu estava) e os contrários, do lado esquerdo. Ao ser dado o sinal para a mudança de local, fui realmente tomada por uma onda: dos 40 alunos, apenas 5 foram contrários ao método de ensino. Um choque total. Essa foi uma daquelas situações tão absurdas que te deixam sem palavras para contra-argumentar.

Em primeiro lugar, é preciso lembrar que há um código de ética que permeia todas as nossas atividades, sobretudo as profissionais. O uso de dinâmicas de teor abusivo, que expõem seus participantes a situações de violência física ou psíquica (e aí se englobam as situações humilhantes, constrangedoras, preconceituosas, etc), é proibido para qualquer profissional. Mesmo em pesquisas experimentais, existe uma enorme burocracia a fim de garantir que seus participantes estejam cientes dos possíveis riscos que estas oferecem e, sobretudo, garantir que estes não aconteçam. Tratando-se de crianças e adolescentes, as ressalvas são mais enfática ainda, dada a vulnerabilidade característica das etapas de desenvolvimento em que se encontram.

Sendo assim, é impensável nos dias atuais fazer um experimento (ou mesmo uma dinâmica) semelhante ao mostrado no filme sem pensar nas transgressões éticas que podemos estar cometendo – e nas implicações catastróficas que podemos ter na vida das pessoas. A metodologia empregada pelo professor acaba por se revelar uma verdadeira lavagem cerebral; os alunos de tanto ouvirem suas ponderações nazistas acabam por repeti-las sem hesitar (usando inclusive da violência física e psicológica contra os colegas que ousarem questionar o movimento). Chega-se a um ponto em que a simples lembrança de que aquilo era só uma dinâmica não basta para desfazer as crenças nas idéias pregadas pelo movimento. Sendo assim, como reverter essa situação? Quem reverterá essa situação? O professor?! Duvido que seja possível a um professor reverter esse quadro sem traumatizar ainda mais os alunos. Além de os cursos e pedagogias e licenciaturas não abordarem temáticas como “elaboração e condução de dinâmica de grupos”, “elaboração de trauma”, “condução de terapia”, etc, a reversão desse quadro seria difícil mesmo para nós, psicólogos, que nos preparamos durante cinco longos anos para realizar tais tarefas.

Ao final do filme, temos um discurso emocionante do professor Ross (parcialmente reproduzido abaixo). Entretanto, o que vemos são adolescentes desolados, (re)descobrindo que tudo não passou de uma farsa, um simples método de ensino, e que, não obstante já tivessem conhecimento disso, eles entraram nos personagens de tal forma que chegaram a praticar atos de violência por motivos ideológicos que nem mesmo acreditavam de fato. Os ganhos (simular uma vivência alienadora de uma ideologia nazista) superaram os riscos?

Se permitirmos transgressões éticas em nome do progresso da ciência, logo estaremos de volta à época de experimentos semelhantes aos nazistas, onde se faziam cirurgias sem anestesias para ver até onde o ser humano poderia suportar a dor, se quebravam os ossos humanos várias vezes para testar a sua capacidade de regeneração, se trocavam braços entre gêmeos para atestar se haveria rejeição dos membros trocados, etc.


"Vocês trocaram sua liberdade pelo luxo de se sentirem superiores. Todos vocês teriam sido bons nazi-fascistas. Certamente iriam vestir uma farda, virar a cabeça e permitir que seus amigos e vizinhos fossem perseguidos e destruídos. O fascismo não é uma coisa que outras pessoas fizeram. Ele está aqui mesmo em todos nós. Vocês perguntam: como que o povo alemão pode ficar impassível enquanto milhares de inocentes seres humanos eram assassinados? Como alegar que não estavam envolvidos. O que faz um povo renegar sua própria história? Pois é assim que a história se repete. Vocês todos vão querer negar o que se passou em "A onda’. Nossa experiência foi um sucesso. Terão ao menos aprendido que somos responsáveis pelos nossos atos. Vocês devem se interrogar: o que fazer em vez de seguir cegamente um líder? E que pelo resto de suas vidas nunca permitirão que a vontade de um grupo usurpe seus direitos individuais. Como é difícil ter que suportar que tudo isso não passou de uma grande vontade e de um sonho".
Discurso do professor Ross, proferido no final de "A onda"

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