
A protagonista do filme se chama Claireece Precious Jones, uma adolescente negra e obesa que é violentada de quase todas as formas. No seio familiar, sofre violências sexuais pelo pai desde a mais tenra idade, culminando em estupros e seus desdobramentos: duas gravidezes na adolescência. Além disso, é violentada fisicamente pela mãe, que a culpa de ter roubado o “seu homem”. Já na escola, Precious é vitima de bullying: seus colegas a ridicularizam por ser gorda e possuir desenvolvimento escolar atrasado (apesar dos seus 16 anos, Precious ainda não sabe ler).
Neste hostil contexto social, pensar-se-ia logo em Precious como uma adolescente depressiva (afinal, ela não possuía ninguém para apoiá-la). Tal suposição, entretanto, não encontra respaldo no filme. Se fosse necessária somente uma palavra para definir Precious na primeira metade do filme, seria “conformada”. Precious (assim como tantas outras vítimas de violência), já naturalizou os abusos que sofreu e sofre constantemente, a ponto de não fazer deles um problema para si; ela simplesmente (sobre)vive, dia após dia. Se a “mãe” a espanca, a sua única reação é se trancar no quarto; se o “pai” a estupra, ela espera acabar para levantar da cama e voltar às suas atividades; se os “colegas” a xingam, ela finge não escutar; se ela desmaia devido a algum golpe físico perpetrado pela “mãe” ou pelos “colegas”, ao acordar ela age como se nada tivesse acontecido e segue o seu caminho. Não, Precious não esboça nenhuma emoção de raiva ou tristeza pela sua realidade. A sua única forma de reagir a tudo isso é através da sua imaginação. Em diversos momentos do filme, Precious fantasia elementos da sua vida de forma diferente: sendo branca, loura e magra; casando-se com seu professor favorito; sendo uma cantora aclamada; tendo uma mãe atenciosa; etc.
Por um bom tempo eu fiquei pensando se seria possível alguém tão cruelmente violentada possuir tal passividade em relação a sua realidade. Após muito pensar, concluí que sim. Precious começou a ser abusada sexualmente pelo pai com 3 anos de idade, o que faz com que tal ato seja naturalizado para ela. A psicologia mostra que, via de regra, o pai começa a aliciar a criança por meio de carinhos e brincadeiras sexuais (que são feitas de forma a parecerem atos normais entre criança e adulto) e vai evoluindo gradativamente, conforme aumenta a sua confiança na passividade da vítima. Convém lembrar que a criança vive numa relação de submissão à autoridade dos pais, o que as desincentiva a questionar certos atos parentais.
Conforme o abuso vai evoluindo em direção ao estupro, vão sendo feitas imposições de atos de sexo oral e, gradativamente, tentativas de penetrações. Nesta fase, a criança geralmente começa a desgostar e mesmo estranhar a “brincadeira”. Tal fato, é claro, é compreensível. A iniciação sexual provoca desconforto ou mesmo dores em mulheres fisicamente aptas para tal ato, quem dirá em crianças, que estão longe disso. Se Precious tivesse alguém em quem confiasse, nessa fase ela certamente relataria os últimos acontecimentos ocorridos em sua casa. Como o filme não entra nos detalhes da sua infância, fico sem saber se Precious nunca contou a ninguém ou se contou e foi vítima de uma outra violência, muito comum nesses casos de abuso sexual intrafamiliar: a incredulidade dos adultos. A criança, quando finalmente toma coragem para ir contra a autoridade do adulto abusador e rompe o pacto (implícito ou explícito) de segredo que envolve os atos, é desmentida pelo adulto, acusada de fantasiar todos os atos relatados. Entre as conseqüências desse desmentido, estão o segredo, o sentimento de impotência, a síndrome da adaptação e a retratação. Sendo assim, Precious pode ter contado a alguém, ter sido desacreditada e acabou se adaptando a sua realidade, talvez até utilizando-se de um processo muito leve de clivagem, onde entrariam as suas outras personalidades louras, casadas, famosas, etc.
Porém, pode ser que o círculo afetivo de Precious girasse somente em torno da mãe (que ao invés de defender a filha quando presenciou as primeiras cenas de violência, culpou-a por ter seduzido o seu marido e tornou-se não só cúmplice do abusador como também agressora física da própria filha), do pai e – talvez – da avó (um tanto inoperante – ou impotente, não sei – frente à realidade de Precious) e Precious realmente nunca tenha tido a quem/com quem contar.
Quer a história tenha se desenvolvido de uma forma ou de outra, fato é que vemos na tela uma Precious bastante passiva frente à violência que permeia a sua vida. As mudanças começam a ocorrer quando, por estar grávida pela segunda vez, Precious é encaminhada para uma escola que possui uma proposta inovadora de ensino, chamada “Each one teachs one”. Lá, conhece Blue Rain, uma professora comprometida com a sua função pedagógica de não apenas informar, mas formar sua classe (no sentido mais amplo possível). Entre meia-dúzia de meninas que seriam consideradas problemáticas na escola regular, Precious começa a se sentir parte de um grupo afetivo e a abandonar a passividade com que até então vivia. Cabe aqui pontuar também a existência de uma atividade pedagógica que consistia na escrita de um diário pessoal, que corrobora para que Precious comece a se perceber como sujeito de sua própria história.
Daí por diante, começa a reviravolta do filme – que eu não contarei porque senão o filme perderá toda a graça para os que ainda não assistiram. Afinal, chega de spoiler.
PS: poucas vezes gostei tanto de uma atuação quanto as de Mo'Nique (Mary - mãe de Precious) e Gabourey Sidibe (Precious).
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