quinta-feira, 15 de abril de 2010

Procurando Elly – até onde vamos para defender a nossa moral?


Assistir “Procurando Elly” foi uma aposta que deu certo. Nesse dia eu tinha ido ao cinema para ver algum outro filme do qual não me lembro mais (e que certamente ficou insignificante perto desse) e, por obra do destino, acabou que só consegui ver este. Tomei conhecimento do filme no mural da bilheteria mesmo. “Filme iraniano... Bem, ao menos conhecerei um filme iraniano” - e realmente valeu à pena. 

Nos últimos anos tenho apreciado bastante assistir a filmes que retratam culturas diferentes, um filme iraniano foi uma boa pedida. Afinal, quando penso no Irã só me vem à cabeça violência, armas nucleares, islamismo... E é sobre isso que trata o filme, não sobre o islamismo em si, mas sobre a cultura iraniana. O filme é o tempo inteiro um contraste entre o novo (a cultura ocidental, que ainda está se infiltrando por lá) e o velho (os valores, os modos iranianos). São as mulheres de véu em carros da pegeut e com celulares sempre à mão, são os homens que vivem no exterior e buscam casamentos arranjados; são participantes de uma sociedade que está se abrindo para o mundo e, ao mesmo tempo, tenta conservar traços de sua cultura. E essa não é a grande discussão atualmente quando se fala de “globalização”, como se abrir para o mundo sem perder a sua identidade? A grande surpresa foi encontrar essa discussão marcada como o ponto central de um filme iraniano, feito por diretores iranianos que conseguiram fugir do fundamentalismo que os cerca e colocar a sua cultura como um objeto de análise. 

O início do filme, que pode parecer meio parado, é justamente onde você percebe o movimento cultural do qual essas pessoas são parte. É mais para situar, colocar o filme dentro do seu contexto social. O que está em cena não é um suspense, drama ou coisa parecida, é a própria cultura iraniana dentro da globalização. Do meio para o final o filme fica bastante tenso e a questão já não é mais a assimilação do novo com o velho, mas sim o prevalecimento dos costumes tradicionais iranianos. Os valores entram em cena com toda intensidade. Para preservar os valores e a sua honra, os protagonistas montam uma rede de mentiras em volta de si e são capazes de mantê-las até as últimas conseqüências. 

É interessante notar a diferença de valoração da honra para os iranianos e para os brasileiros, por exemplo. Acredito que nós, brasileiros, não teríamos tantos problemas em admitir que contamos uma pequena mentira porque não somos tão santos assim. Já os iranianos (sobretudo as mulheres) são capazes de arriscar a sua integridade física para defender a sua honra e a daqueles por quem possuem estima (mesmo que para tanto tenham que utilizar-se de muitas mentiras e meias-verdades). São situações bobas, crenças insignificantes para nós, mas que para eles valem muito. “Procurando Elly” é um filme para refletir, parece que é alguma aventura à procura de Elly, mas na verdade é um drama muito bem amarrado sobre o papel dos valores dentro de uma cultura.

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