sábado, 22 de maio de 2010

Mary e Max – A amizade entre um solitário aspie e uma solitária criança




Mary é uma criança solitária australiana. Não possui investimento afetivo de seus pais, que sequer lhe dão atenção. Seu pai vive em meio a animais empalhados e sua mãe, a bebidas. Mary também não possui amigos; é zombada na escola por conta de sua marca de nascença grande e marrom na testa. O único amigo de Mary é seu galo. Esse cenário social hostil certamente deixa Mary triste, levemente depressiva mesmo. Mary não é uma criança que quer ser sozinha ou que não liga para o amor dos pais (se é que poderia existir essa criança), pelo contrário, Mary tenta se socializar e é ridicularizada pelos companheiros de escola e não consegue transformar aproximação física em afetiva dos seus pais. Mary é uma criança deprimida, carente e desesperada por amigos, atenção e afeto. 

Como o mundo real não corresponde ao seu desejo e o mundo imaginário já não dá mais conta de suprimir as suas carências, Mary busca conforto em um amigo de correspondência. Descobre um livro com nomes e endereços de pessoas que vivem em Nova Iorque e escolhe um desses nomes, aleatoriamente, para enviar uma carta. Nesta carta, Mary se apresenta e pede ao Max para ser seu amigo. A carta é um tanto desorientadora, até perturbadora. Mistura traços melancólicos com ingenuidade infantil e, ainda, muita docilidade e inocência. Mary tem muitas perguntas sobre o mundo, muitos desabafos a fazer. Tem muito o que chorar e precisa de um ombro amigo, muito o que aprender e precisa de alguém que lhe ensine. Ela é uma espécie de pequena Clarice Lispector às avessas: por mais que queria ter a beleza das coisas, ela só tem a tristeza. Quer companhia, mas só tem solidão. Junto com a carta, Mary envia também um auto-retrato (uma atitude típica infantil) e uma barra de seu chocolate favorito, para felicitar seu novo amigo. O que você faria se recebesse uma carta dessa? 

Creio que a carta é altamente desconcertante e sensibilizadora para qualquer um, pois independentemente de nossa história pessoal é certo que todos nós já fomos crianças e nos identificaremos em alguma medida com as questões apontadas por Mary. Mas certamente seu impacto será muito maior quanto mais pontos em comum tivermos com Mary. Esse é o caso de Max. Diagnosticado com Síndrome de Asperger, Max também vive a vida solitariamente, somente na companhia de seus animais de estimação. Embora tenha 43 anos, também não sabe como se relacionar com as pessoas, pois (assim como os demais possuidores dessa Síndrome) é pouco empático, o que freqüentemente o coloca em situações embaraçosas. Max já chegou ao ponto de ter fobia social; seu medo de interagir com os outros é tanto que ele preferiria viver na Lua a ter que conviver em sociedade. Ao receber a carta de Mary, Max é confrontado com seus próprios problemas e com sua própria história (também ele foi vítima de bullying). Entra em crise. Porém a carta da menina é penetrante o suficiente para que Max se esforce ao máximo para ajudá-la a resolver problemas que ele mesmo teve, tem e ainda não consegue resolver. Assim, Max vai resolvendo as questões da menina e, se não fosse pela Síndrome de Asperger, daria também um grande passo na resolução dos seus problemas. Ao final, Max continua introvertido, com fobia social, atitudes paranóicas, etc., mas finalmente possui uma (única) amiga. Pode parecer pouco para a maior parte das pessoas, mas é muito para alguém com Síndrome de Asperger. 


“Mary e Max” fala não só da incomum amizade entre um homem e uma criança, mas também de todos esses intrigantes conflitos que atravessam e instigam essa amizade. São dilemas reais expostos em um mundo mágico sartreano – ainda mais mágico por remeter ao mundo infantil, para onde os personagens de massinha nos transportam com toda intensidade. 






Que a minha solidão me sirva de companhia,
que eu tenha coragem de me enfrentar,
que eu saiba ficar com o nada
e mesmo assim me sentir, como se
estivesse plena de tudo". 
Clarice Lispector

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