segunda-feira, 7 de junho de 2010

Olhos azuis - o experimento/documentário



A professora Jane Elliot, mestre da 3ª série de uma escola em Iowa, pequena cidade onde negros são minoria, não sabia como explicar aos seus alunos por que haviam assassinado o presidente Martin Luther King, a pessoa que eles tinham considerado o seu “Herói do Mês”. A solução encontrada pela professora foi a elaboração e execução de uma dinâmica para ensinar e sensibilizar os alunos para os mecanismos e os efeitos da discriminação racial. Seus jovens alunos afirmavam que as pessoas deveriam ser tratadas como eles gostariam que elas o tratassem, de forma fraterna. No entanto, tinha consciência que as pessoas de cor diferente (todos os que não eram brancos) eram tratados de forma diferente. A professora, então, questiona como é que eles achavam que era ser uma pessoa de “cor diferente” e os faz sentir na pele essa dura realidade. 


Os alunos de sua classe foram divididos pela cor dos olhos (olhos castanhos, olhos azuis). No primeiro dia, Elliot disse às crianças de olhos azuis que elas eram mais espertas, mais bonitas, mais limpas e melhores do que as de olhos castanhos. Durante todo o dia a professora elogiou-as, concedeu-lhes privilégios enquanto que os meninos de olhos castanhos tinham que usar um colarinho e viram os seus comportamentos e resultados criticados e ridicularizados. Além disso, eles não podiam brincar com as outras crianças, não eram elogiados pela Jane, só podiam ficar sentados no fundo da sala de aula e eram tratados como inferiores às crianças que tinham os olhos azuis. No dia seguinte, os papéis inverteram-se e as crianças de olhos azuis foram consideradas os “inferiores” em relação às de olhos castanhos. 

Os resultados desses dois dias do exercício foram surpreendentes: as crianças que foram consideradas “inferiores”, comportaram-se efetivamente como verdadeiras pessoas que se sentiam “inferiores”, com fracos resultados nos exercícios escolares; em contraste, os alunos “superiores” tiveram atitudes de arrogância em relação aos outros miúdos. Isto, apesar de todas as crianças saberem perfeitamente que se tratava de um jogo e de Jane jamais ter falado que um ou outro grupo eram superior ou inferior – ela falava que eles eram apenas “diferentes”. Durante essa experiência, as crianças discriminadas negativamente se magoaram, ficaram tristes e se sentiram injustiçadas. Já as crianças do outro grupo assumiram freqüentemente comportamentos de tiranos. 

A experiência provocou bastante indignação não só dos pais dos alunos como da comunidade local. O restaurante dos pais de Jane (pessoas brancas de olhos azuis iguais a ela), que costumava lotar no horário do almoço, ficou vazio. Vários pais pediram a direção da escola que não colocassem seus filhos para ter aula na sala “daquela amante de macacos”. 

Os relatos da experiência “Olhos azuis/Olhos castanhos” ficaram rapidamente conhecidos e a professora Jane Elliott foi convidada a participar do programa “Tonight Show”, de Johnny Carson. As reações foram novamente negativas: centenas de telefonemas criticando o atrevimento dela a discriminar cruelmente crueldade crianças brancas; “as crianças pretas crescem habituadas a tal comportamento, mas as crianças brancas não conseguem compreendê-lo”. A professora respondeu as críticas convidando os próprios críticos à reflexão: se um único dia de discriminação causa tamanho efeito em uma pessoa, o que dizer de uma vida inteira cercada pelo preconceito? Como uma criança que é discriminada desde o momento do seu nascimento pode competir em igualdade com outra que é estimulada, amada e incentivada? Isso não é cruel? Não é totalmente desumano?

Jane Elliot repetiu o exercício em 1969 e em 1970, sendo o último filmado para a “ABC News” e exibido com o título “Eye of the Storm”. O documentário rendeu um Emmy e fez de Elliot uma militante fervorosa contra o racismo mundialmente conhecida. 

É interessante notar que a experiência de Jane acarretou em situações de tensão emocional para crianças que poderia facilmente se transformar em um evento traumático com resultados catastróficos que marcariam essas crianças por um bom tempo (se não para sempre). Basta lembrar do experimento mostrado no filme “A onda” para ter idéia da dimensão dos danos que poderiam ocorrer (e realmente ocorreram). Os dois experimentos propõem basicamente que discriminação e manipulação sejam sentidos na pele, sendo um com adolescentes e o outro com crianças. Fico a pensar no que tornou um experimento o símbolo da falta de ética e pudor e o outro, um experimento exemplar digno de Emmy, sendo os dois experimentos praticamente contemporâneos. 

Acho que o que diferenciou o ético do não-ético neste caso foram as próprias posturas adotadas: o professor Ross clara e verbalmente incitou a discórdia que se transformou em violência. Já a professora Jane apenas deixou subentendido. Professor Ross não soube o momento certo de parar o seu experimento (antes do desfecho trágico); já a professora Jane parou no momento em que já tinha alcançado o seu objetivo de fazer tanto as crianças de olhos azuis quanto as de olhos castanhos já tinha sofrido o suficiente para entenderem o que é discriminação, no momento em que o trauma é reversível à sensibilização para a causa. A causa da professora Jane era (e ainda é) atual e urgente, já a do professor Ross tal como é feita (entender somente como os alemães foram manipulados pelos nazistas – um evento já passado -, não englobando as manipulações feitas nos próprios anos 60) não possui muita utilidade que justifique os riscos. 

Em 1985, a PBS/FRONTLINE emitiu o documentário “A Class Divided” que documenta o reencontro de 11 ex-alunos da 3ª classe de 1970 com a sua ex-professora Jane Elliot, em 1984, em que vêem a filmagem de 1970 e discutem o impacto do exercício em suas vidas. A conclusão dos ex-alunos, agora já crescidos, é que o mesmo exercício deve ser repetido por alunos e professores para que eles também sintam o que é ser discriminado. O mesmo documentário, mostra ainda uma lição de Jane Elliot aos empregados do sistema prisional de Iowa – e a reação destes é muito similar à das crianças de 1970. 


Por fim, cabe ressaltar que professora Jane Elliot até hoje realiza experimentos desse tipo em workshops onde ela aplica um exercício de um dia de discriminação a um grupo de pessoas, sobretudo adultos. A seqüência de documentários “Olhos Azuis”, por exemplo, conta a experiência de diversos workshops feitos exclusivamente com adultos nos quais são nítidos os efeitos negativos que apenas algumas horas de discriminação (que nem mesmo incluem agressões físicas) podem acarretar. Como diria Jane, quem dirá uma vida inteira de discriminação.

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