Mackey, sem conseguir se conter – e tentando ao máximo ser gentil – questionou: “como é que você pode, um matemático, um homem dedicado à razão e à prova lógica... como é que você pode acreditar que extraterrestres estão lhe enviando mensagens? Como é que você pode acreditar que está sendo recrutado por alienígenas do espaço para salvar o mundo? Como é que você pode...?”. Nash, frio e vagarosamente, respondeu: “Porque as idéias que eu tinha sobre seres sobrenaturais vinham a mim da mesma forma que minhas idéias matemáticas. De modo que as considerei seriamente”
John Nash nasceu em 13 de junho 1928, filho de uma professora, Margaret Virginia Martin, e um engenheiro elétrico chamado John Forbes Nash, de quem John Nash herdou o seu nome, tal como o próprio matemático afirma em sua autobiografia. Além de Nash, o casal teve também outra filha, Martha Nash Legg, nascida em 16 de Novembro de 1930. De acordo com Sylvia Nasar entre as mais antigas “boas lembranças” de John Nash existe uma em que ele, como uma criança de dois ou três anos, ouvia a sua avó materna tocar bem piano na casa antiga em que morava.
Sobre o seu pai, de John Forbes Nash, Nash conta que, além de ser engenheiro, um dado importante a destacar é o fato de ele ser também veterano, tendo servido na França durante Primeira Guerra Mundial. De acordo com Nash, seu pai nunca atuou na linha de combate, ele apenas dava suporte aos serviços. Já Sylvia Nasar traz informações mais detalhadas de John Forbes Nash. Segundo sua pesquisa biográfica, a autora constatou que teve uma infância infeliz devido em grande parte a separação de seus pais. Alexander Quincy Nash, avô paterno de John Nash, era um indivíduo estranho e instável, que logo se ausentou de casa, obrigando a avó de Nash, Martha Nash, a trabalhar para sustentar os seus três filhos. John Forbes Nash possuiu uma inimizade eterna para com seu pai e a ausência deste fez com que ele ansiasse profunda e constantemente por respeitabilidade, além de contribuir para o distanciamento emocional que ele mais tarde demonstrou a seus próprios filhos. As contribuições de John Forbes Nash a educação dos filhos era bastante distante, mas ainda assim presente. Ele os levava para passeios aos domingos para inspecionar linhas de transmissão elétrica, respondendo aos questionamentos de Nash sobre eletricidade, geologia, clima, astronomia e etc. Segundo a pesquisa de Sylvia Nasar, Nash sempre foi tratado como um adulto em miniatura por seu pai, por exemplo, ao invés de ganhar livros de colorir, ele ganhava livros de ciências.
Assim como seu pai, John Nash também teve uma proximidade afetiva maior com a sua mãe, Margaret Virginia Martin. Ela vinha de uma família bem estruturada e era menos rígida e mais ativa (inclusive afetivamente) na vida do filho que o marido. Professora de inglês e latim antes de se casar, Virgínia era uma professora nata, habilidade que mais tarde esbanjaria com seu talentoso filho.
Nash foi uma criança solitária e introvertida. Apesar da insistência de sua mãe para que ele se socializasse com as crianças da vizinhança (tarefa posteriormente delegada a sua irmã, Marta, uma menina bastante extrovertida desde criança), Nash preferia passar seu tempo brincando sozinho ou, principalmente, lendo. John Nash destacou em sua autobiografia que os livros foram, de fato, marcantes no início de sua educação, sobretudo uma enciclopédia que ganhou de seus pais e os demais livros existentes na sua casa e na casa de seus avós. A primeira façanha matemática de John Nash, aos 14 anos, veio inclusive de um livro, intitulado “Men of Mathematics”, lido no Ensino Médio. Além de experimentos matemáticos, ele lembra-se de ter feitos experimentos químicos e elétricos nessa época também. Cabe ressalte que, embora não tivesse amigos íntimos, ele gostava exibir seus conhecimentos para outras crianças.
Quando Nash estava no primeiro ano do Ensino Médio ocorreu o ataque à base naval de Pearl Harbor. John Forbes Nash, movido pela crença de que os japoneses bombardeariam a cidade natal deles para destruir os trens de carvão e assim parar a máquina de guerra americana, ensinou seus filhos a atirar, um aprendizado que Nash acatou com entusiasmo.
O tédio e a agressividade latente de adolescente levaram-no a fazer travessuras, ocasionalmente algumas de caráter maldoso. Certa vez, Nash disse a um colega do MIT que, quando jovem, gostava de torturar pequenos animais. Nash chegou a construir uma cadeira de balanço ligada a uma corrente elétrica e tentar fazer sua irmã Martha sentar nela. Além disso, quando tinha 15 anos, ele e duas crianças vizinhas gostavam de fabricar bomba caseira e pólvora. Uma dessas crianças inclusive morreu ao tentar fabricar, sozinha, uma bomba caseira que acabou explodindo em seu colo.
Nash conta que no início, quando questionado sobre seu futuro profissional, ele se preparou para seguir os mesmos passos de seu pai como engenheiro elétrico. Na época, Nash e seu pai chegaram inclusive a publicar, juntos, um artigo em um periódico especializado em engenharia. Nash entrou na competição nacional George Westinghouse e ganhou uma das 10 bolsas de estudo integral que eram concedidas. Ingressou na Carnegie Tech (atualmente conhecida como Carnegie Mellon University), em Pittsburgh, onde se especializou em engenharia química. Nasar relata que, já nessa época, alguns colegas de universidade de Nash percebiam algo estranho nele. “Ele se comportava de maneira estranha, tocando sem para uma única nota no piano, deixando uma casquinha de sorvete derreter em cima de suas roupas abandonadas no saguão, pisando no corpo de um colega de quarto adormecido para apagar uma lâmpada [...] Atormentávamos o pobre John [...] Percebíamos que ele tinha um problema mental” (NASAR, 2002, p. 54).
Sylvia Nasar conta também que na sua fase de universitário Nash descobriu que tinha certa atração por homens[1]. Nash teria inclusive dado uma cantada em um amigo. Esse foi mais um motivo de zombaria por parte de seus companheiros de faculdade. Algumas vezes Nash respondia às brincadeiras de mau gosto que lhe eram feitas com agressividade, outras transparecendo e ratificando verbalmente seu desprezo pelos outros que não estavam no seu nível.
Entretanto, Nash não era completamente alienado de uma vida social. Após um ano de faculdade, Nash alcançou um reconhecimento intelectual e muitos estudantes o procuravam para apresentar problemas para ele resolver. Contudo, seus melhores relacionamentos interpessoais se baseavam unicamente nesses desafios matemáticos que lhe eram trazidos.
Nessa época, Nash ansiava por um reconhecimento intelectual mais universal, de forma que participou da notória competição de matemática William Lowell Putnam. Entretanto, seu desejo não se concretizou: ele não ficou entre os cinco melhores. Essa rejeição parece ter sido encarada com amargura durante toda a vida de Nash, tendo ele mencionado inclusive na sua autobiografia como o motivo pelo qual Harvard o dispensou uma bolsa de valor inferior.
Sobre sua inclinação cada vez maior para a matemática em detrimento da engenharia química, Nash relata que após um semestre do curso de engenharia química ele começou a se desinteressar pelo curso por discordar da forma como ele era conduzido e também pelo fato de não conseguir responder a alguns de seus questionamentos acadêmicos com os ensinamentos provenientes dele. Então, movido pelo seu interesse pela matemática e pela crença de que era possível fazer uma boa carreira nos EUA como matemático, John Nash mudou novamente e se tornou estudante de matemática. No seu terceiro ano de universidade, Nash já havia sido aceito em Harvard, Princeton, Chicago e Michigan, os quatro melhores cursos de pós-graduação em matemática do país. Na sua escolha, pesou o fato de que Princeton “parecia mais interessada” em tê-lo como estudante, tendo o prof. A.W. Tucker inclusive escrito uma carta a John Nash o encorajando a ingressar em Princeton (universidade que já foi chamada de “centro do Universo” da matemática, reduto de gênios como Einstein, Gödel e Oppenheimer). Além disso, John Nash destaca também que a escolha por Princeton era mais atrativa do ponto de vista financeiro e familiar, pois a bolsa de Princeton era mais generosa a localização geográfica da universidade fica mais próxima de sua cidade natal do que Harvard.
Além disso, cabe ressaltar outro fato curioso que ocorreu com Nash na época de sua formatura: o medo de ser convocado para o serviço militar e de os EUA entrarem em guerra e ele acabar parando na infantaria. Entretanto, surgiu a oferta de um emprego de verão em um projeto de pesquisa na Marinha, oferta essa aceita por Nash porque “facilitaria o caminho para uma eventualidade mais desejável” (NASAR, 2002, 60).
As relações interpessoais de Nash em Princeton continuaram semelhantes às de Carnegie, à exceção de que, com a maturidade proveniente da idade de seus colegas, as brincadeiras de mau gosto eram talvez um pouco menos inconvenientes para Nash. Mas a esquisitice de John Nash continuava a chamar a atenção dos demais. Nash estava sempre sozinho, mergulhado em seus pensamentos, murmurando consigo mesmo e assobiando “a pequena fuga”, de Bach. Nasar ressalta que os relacionamentos de Nash com homens continuaram na sua estadia em Princeton.
Um fato curioso que Sylvia Nasar chama atenção em seu livro revela que Nash se declarava xintoísta, dando a entender que sua linhagem era superior a de seus colegas, principalmente em relação aos judeus. Pessoas que conheceram Nash nessa época revelaram a Nasar que ele se dizia contra a mistura racial, pois esta resultaria na deterioração da linhagem racial. Além disso, a biógrafa relata também que ninguém se lembrava de ter visto Nash com livros. Parece que depois de uma certa idade, Nash passou a preferir ler o mínimo possível para não asfixiar sua criatividade e originalidade. Ele estava decidido a conservar sua independência intelectual, detestava a idéia de ficar devedor de alguém do ponto de vista intelectual.
Do ponto de vista acadêmico Nash fez vários avanços durante a sua estadia em Princeton que só foram devidamente reconhecidos mais tarde. Dentre esses avanços, pode se citar a resolução de problemas físicos e matemáticos, a invenção de um jogo de tabuleiro (anos depois comercializado sem o devido crédito), a criação de um teorema (e nesse ponto cabe ressaltar que Nash fez uma ressalva em sua publicação para que não ficasse todo para si o crédito, agradecendo o auxílio de dois professores), etc. E, é claro, teve a sua idéia absolutamente original, desenvolvida nas 27 páginas de sua tese, para resolver um impasse da teoria dos jogos. Essa teoria, desenvolvida por John von Neumann nos anos 20, busca resolver matematicamente os dilemas do comportamento humano, principalmente nas situações que envolvem tomada de decisões. Mas estava baseada em casos de pouca aplicação prática, com dois jogadores e soma zero, onde a vitória de um significa a derrota do outro. Nash ampliou a teoria para incluir mais de dois participantes e com uma soma diferente de zero, como são, por exemplo, as megafusões empresariais, as licitações para uma privatização ou as políticas de orçamento. Ou aqueles casos em que “os jogadores procuram um conjunto de escolhas tais que a estratégia de cada pessoa seja a melhor quando todas as outras pessoas também estão usando suas melhores estratégias”. Nash percebeu que, nos jogos interativos, cada jogador era um otimizador enfrentando outros otimizadores. Assim, era um erro pensar em “soma zero” e pensar que o concorrente era um ser maligno de que precisava se livrar. Com esse raciocínio, ao fim, todos acabavam perdendo. O melhor era que os indivíduos tentassem entrar em cooperação que beneficiaria a todos. Ou, usando o exemplo do filme de Ron Howard: se todos os amigos na mesa desejam a loura gostosa que entrou no bar, ninguém ficará com ela. No momento em que um indivíduo (Nash inverteu o foco de Neumann, do grupo para o particular) escolhesse a sua melhor resposta para as melhores estratégias dos outros jogadores estava quebrada a cadeia do “eu penso que você pensa”. Por vezes vale a pena colaborar com os adversários. Esse é o teorema do equilíbrio em jogos não-cooperativos (o chamado “Equilíbrio de Nash”), que também tem aplicações em ciência política, sociologia e até em biologia evolutiva e que lhe valeria o Nobel 44 anos depois[2]. De acordo com a biógrafa Sylvia Nasar todo o edifício da teoria de jogos repousa sobre os teoremas: o teorema minimax de Neumann, de 1928, e o teorema do equilíbrio de Nash, de 1950[3]. Entretanto, cabe ressaltar que, na época, não foi dado a Nash o devido reconhecimento pelo brilhantismo de sua solução. Nem seu próprio orientador de tese de doutorado reconheceu a significância e magnitude da tese de Nash.
Em 1950, Nash começa a trabalhar para a RAND Corporation, instituição esta que canalizava fundos do governo dos Estados Unidos para estudos científicos relacionados com a guerra fria. Nash aplicou os seus recentes avanços na teoria dos jogos para analisar estratégias diplomáticas e militares. Na RAND, Nash ficou conhecido não só pelo seu brilhantismo como também pelas suas esquisitices e seu comportamento pouco social até para os padrões de matemáticos excêntricos. Contudo, nem a perspectiva de desempenhar o papel de um estrategista militar e nem o salário eram suficientes para convencer Nash a aceitar a proposta de ocupar um lugar permanente no grupo de pesquisa. Nash queria, de fato, trabalhar sozinho e ter a liberdade de percorrer todas as áreas da matemática, o que só seria possível a um professor de uma universidade importante. Naquele momento, surgiu o convite para a vaga de professor-assistente pago em Princeton, que tinha como atribuições lecionar a alunos de graduação e desenvolver pesquisas próprias. Esse apoio a pesquisas definitivamente animou bastante Nash a aceitar a proposta, esperando uma vaga efetiva no corpo docente.
Nessa época estourou a guerra na Coréia, e Nash foi informado por seus conhecidos que ele estava em perigo eminente de convocação militar. Nasar observa que, a fim de evitar que seu medo da convocação se concretização, Nash foi capaz de montar estratégias, esmiuçando os fatos necessários, usando contatos de seu pai e reunindo pareceres de aliados seus para conseguir uma licença dispensa de recrutamento com base nas suas indispensáveis funções para a segurança nacional. Entretanto, o medo de Nash da convocação militar continuou mesmo após o término da Guerra da Coréia e o seu aniversário de 26 anos (idade limite para a convocação) e, por fim, acabou atingindo proporções delirantes e ajudou a levá-lo a uma tentativa de renunciar à cidadania americana e procurar asilo político em outros países.
Nash seguiu trabalhando, simultaneamente, na RAND e em Princeton e à espera de uma vaga titular nesta. Contudo, quando a proposta surgiu, alguns meses depois, foi rejeitada. Alguns professores do departamento justificaram seu veto alegando que não conseguiriam viver com as excentricidades de Nash e a falta de habilidade de Nash como professor. Nasar considera que Nash encarou essa rejeição provavelmente mais por motivos profissionais do que por motivos pessoais. Entretanto, um conhecido de Nash influente no meio acadêmico estimulou tanto o MIT quanto a Universidade de Chicago a contratarem ele como professor temporário, insistindo para que os professores ignorassem as fofocas sobre a personalidade difícil de Nash. Nash aceitou a proposta do MIT (apesar de a carga horária dedicada para lecionar ser intensa para os padrões da época e de o local ter relativamente pouco prestígio até então), e em 1951, com 23 anos, começou a atuar no instituto.
Devido a sua pouca idade e a sua aparência jovial (o mais jovem membro do instituto, mais novo inclusive que muitos alunos da pós-graduação), Nash foi logo alvo de brincadeiras, apelidado de Professor-Garotinho. A sua pouca habilidade para lecionar (que incluía longas divagações muito avançadas sobre desafios matemáticos) novamente se manifestou no MIT e, embora Nash não desse a menor importância a isso, esse fato somado às notas baixas que ele dava aos alunos logo fez com que os discentes evitassem completamente os seus cursos. Entretanto, Nash conseguia atrair os alunos que ele achava que tinham talento para a matemática e esses alunos consideravam que Nash estava sempre acessível, disponível e disposto a conversar eternamente sobre matemática. Cabe destacar também que no MIT Nash novamente se envolveu afetivamente com um homem, que na época da pesquisa biográfica de Nasar afirmava ter sido assediado sexualmente por Nash, embora a história revelada nessa mesma pesquisa indique certa reciprocidade entre os dois.
No MIT, Nash começou a incorporar maneirismos dos gênios excêntricos que estavam a sua volta (lembrando que nessa época era lugar comum pensar que excentricidade e ser bom em matemática eram duas coisas que combinavam). Por exemplo, Wiener, que era terrivelmente míope, conservava um dos dedos no sulco da parede, entre os azulejos e o reboco, para manter o seu curso, enquanto caminhava, hesitante, pelos corredores. Nash fazia a mesma coisa. D.J. Newman condenava toda música depois de Beethoven. Nash costumava entrar na discoteca e dizia a qualquer um que estivesse ouvindo alguma coisa moderna, “Isso é porcaria”. Levinson, cuja filha sofria de depressão maníaco-depressiva, odiava psiquiatras. Nash adotou uma postura veemente similar contra essa profissão. Warren Ambrose detestava cumprimentos convencionais do tipo “Como vai você?”. Nash o imitava.
Ao mesmo tempo, Nash lutava cada vez mais para acentuar sua originalidade, superioridade e auto-eficiência no MIT. Estava sempre dizendo que apenas uma ou duas pessoas do departamento (incluindo aí sempre D.J. Newman, seu admirador e pessoa mais próxima dele no departamento) estavam a sua altura. Os demais eram "humanóides". Nash adorava um show, adorava atrair a atenção do público (e freqüentemente humilhá-lo também). Conta-se que nas festas ele representava (sempre girando em torno da matemática) em vez de conversar e detestava ser desafiado por alguém que ele considerava inferior.
Em 1953, ainda no início da Guerra Fria, investigadores do FBI vasculhavam todo o MIT a procura de membros do Partido Comunista. Alguns professores foram intimados a deporem e o envolvimento de alguns deles foi confirmado. Nasar relata que “era um estado de sítio e todos no departamento sentiram a ameaça” (p. 188). Todos exceto Nash, que continuava muito mais preocupado com a possibilidade da convocação militar. Entretanto, essa época “raivosa, assustadora e turbulenta” lhe forneceria alguns dos demônios acusadores que o assombrariam mais tarde. Nessa mesma época, relata-se ainda que foi oferecido a Nash um cargo com professor titular no MIT, um fato um tanto quanto surpreendente, uma vez que as bolsas dos professores temporários não eram destinadas a encaminhá-los a cargos permanentes.
Nesse mesmo ano, Nash se submeteu a uma cirurgia para retirada de veias varicosas e conheceu uma enfermeira chamada Eleanor. Aos 29 anos, Eleanor era, para Nash, uma jovem morena atraente, bastante tímida, de inteligência comum, com modos simples e uma maneira especial de falar (dado o seu sotaque inglês).Eleanor, por sua vez, lembra de si mesma naqueles tempos como sendo uma pessoa realmente boa e que não namorava muitos homens – na bem verdade tinha até um pouco de medo deles. Não queria se envolver sexualmente, achava o sexo uma "coisa meio nojenta" (NASAR, 2002, p. 213). Contudo, Nash a desarmou logo no início. Um homem cinco anos mais jovem e ainda menos experiente que ela, professor do MIT, de boa família, que fazia um trabalho ultra-secreto para o governo e que, de forma infantil e “doce”, a cortejava. Nos encontros, Nash não questionava sobre nenhum aspecto da vida de Eleanor, apenas ficava falando sem falar sobre si próprio e Eleanor, que não estava disposta a compartilhar os detalhes bastante tristes do seu passado modesto, sobretudo quando Nash dava a entender que vinha de uma família rica, ficava perfeitamente satisfeita com isso.
Pouco tempo depois Eleanor Stier informou a Nash que ela estava grávida, uma notícia recebida com certo contentamento por ele, que achava muito atraente a idéia de prole. Segundo Nasar, Nash esperava que fosse um menino, que se chamaria John igual a ele e seu pai. Eleanor esperava que Nash se casasse com ela. Porém, com o passar do tempo Nash sequer mencionou essa possibilidade. Então, consolava-se pensando que ele era, afinal, um jovem notável. Sabia que, de alguma forma, no final tudo ia dar certo. Não foi o que ocorreu.
Logo a relação deles mudou, perdendo a sua característica despreocupada. As humilhações de Nash à Eleanor eram cada vez mais agressivas: chamava-a de burra e ignorante, lembrava da diferença de idade entre eles, caçoava de seu sotaque e, principalmente, do desejo dela de se casar com ele (“um professor do MIT precisava de uma mulher que fosse intelectualmente igual a ele” (NASAR, 2002, p.215)).
John David Stier nasceu no dia 19 de julho de 1953, quando Nash tinha 25 anos. Eleanor conta que Nash não se ofereceu para pagar o parto ou colocar seu nome na certidão de nascimento, mas ficava no hospital e visitava o menino quando lhe era possível. Sem a ajuda de Nash, Eleanor foi trabalhar como enfermeira particular em casas que aceitavam crianças e Nash continuou a vê-los. Porém, quando a família descobriu que ela recebia homens, Eleanor foi demitida. Sem emprego e sem a ajuda de Nash, Eleanor viu-se obrigada a deixar o bebê com uma série de famílias e aos domingos os dois o visitavam. Algum tempo depois Eleanor foi morar no apartamento de Nash, mas não era uma relação oficial, poucas pessoas souberam da existência da Eleanor e, menos ainda, da existência de John David Stier. Entretanto, Nasar relata que uma fotografia, tirada num passeio de domingo quando a criança tinha poucos meses de vida, torna impossível negar a sensação de que os três eram uma família em todos os sentidos, exceto no legal.
Quando a criança completou seis anos, Nash sugeriu a Eleanor que ela fosse posta em um orfanato para adoção, pois ficaria em melhor situação do que com eles e eles sempre saberiam onde o menino estava. Eleanor acatou a sugestão cruel, que praticamente matou todo o amor que ela ainda sentia por Nash. Em 1959, quando Nash desapareceu repentinamente da vida do seu filho, chegou um pacote não-endereçado mal embrulhado contendo um avião de madeira, fabricado com muito esmero, “uma coisa linda” segundo John David, que tinha certeza que era proveniente do seu pai.[4]
Apesar do seu relacionamento com Eleanor, Nash continuou a se envolver com homens nesse mesmo período. Em uma data próxima ao momento em que conheceu Eleanor, Nash conheceu também um matemático chamado Jack. É interessante notar que, quando Nash contou a Jack sobre Eleanor, ele o fez dizendo, em um tom melodramático “eu tenho uma amante”. Além disso, Nasar relata que, durante o verão de 1954, Nash foi preso acusado de "atentado ao pudor" (relacionamento sexual com outro homem). Os policiais ligaram para a RAND avisando da prisão de Nash. Para o departamento do qual fazia parte Nash, estava claro que tinha sido uma “armadilha policial”[5] Entretanto, Nash lidava com assuntos ultra-secretos e, assim como vários outros funcionários da RAND que foram presos pelo mesmo motivo, tinha que ser desligado da empresa. Ao que tudo indica, Nash recebeu essa notícia com bastante surpresa, pois, uma vez que ele era um dos gênios da RAND, supôs que seus superiores iriam simplesmente fazer vista grossa para o incidente.
Nash foi dispensado da RAND, mas continuou no MIT, ainda conheceu Alicia. Alicia vinha de uma boa família européia, formada por intelectuais, pessoas bem sucedidas em diversas áreas e de muito prestígio em El Salvador. Alicia conheceu Nash quando freqüentou o curso que ele ministrou na pós-graduação em física no MIT. Para Alicia, Nash era "a coisa mais próxima da realeza". De fato, Nash não prestou nenhuma atenção em Alicia, mas Alicia estava definitivamente determinada e pronta para seduzi-lo. Alicia procurava estar em todos os locais que sabia que Nash estava, esperando uma oportunidade para ser notada. Nessa época ela já tinha percebido que seus sonhos de se tornar uma cientista famosa não sobreviveriam ao duro teste de realidade aplicado pelo MIT (e, de fato, suas notas baixas, frutos do seu pouco empenho, comprovavam isso). Nasar pondera que “de modo pragmático, ela reconheceu que o casamento com um homem importante também podia satisfazer suas ambições [...] John [Nash] podia das à Alicia muitas coisas que ela não tinha” (NASAR, 2002, p. 241). Nash finalmente notou Alicia quando ainda estava paralisado frente à temerosa possibilidade de se casar com Eleanor. A linhagem aristocrática de Alicia, seu traquejo social e sua beleza agradavam ao senso de superioridade de Nash. Entretanto, Nasar revela também que, a exemplo do que ocorria com Eleanor, Nash não era muito gentil com Alicia. Cabe destacar inclusive que, nessa época, Nash continuava envolvido com Eleanor e com Jack. Eleanor inclusive descobriu o caso de Nash com Alicia logo no início e telefonou para ela dizendo que “ela estava roubando o homem de outra mulher. Falou-lhe de John David. Disse que Nash estava planejando casar-se com ela” (NASAR, 2002, p. 246).
No verão de 1956, Nash recebeu uma ligação de seus pais dizendo que Eleanor havia entrado em contato com ele e os chocado revelando a existência de John David. Os pais de Nash o aconselharam a se casar com Eleanor imediatamente, para consertar as coisas. Nash soube também que Eleanor havia contratado um advogado para obrigá-lo a dar pensão alimentícia para a criança. Nash recusava-se a fazê-lo. Ao pedir um conselho para um amigo – um dos poucos com quem falava, ainda que raramente, sobre si –, Nash foi convencido de que deveria dar pensão, se não pelo próprio filho, pelo seu futuro (pois pairava uma ameaça de o advogado levar o caso ao MIT – o que não seria visto com bons olhos).
Alguns meses após a ligação de Eleanor, o pai de Nash faleceu, vítima de um violento ataque cardíaco. A mãe de Nash, Virgínia, escreveu uma carta a Eleanor culpando-a pela morte do marido. Nasar afirma ser bem provável que Virgínia tenha dito ou pelo menos insinuado alguma coisa semelhante para o filho. Algumas evidências encontradas na pesquisa da autora indicam que esses acontecimentos ocorreram próximos da época em que Nash e Alicia se comprometeram formalmente (uma data que nem Nash nem Alicia afirmam se lembrar).
Nash e Alicia se casaram no inicio de 1957 e logo se habituaram aos rituais particulares e sociais de um casal de acadêmicos recém-casado: jantares fora, reuniões com amigos matemáticos, palestras, concertos, etc. Alicia sempre conseguia fazer com que eles ficassem rodeados de gente divertida. Nas reuniões, Nash costumava conversar com matemáticos e Alicia com as esposas. Ao que tudo indicava, o trigésimo aniversario de Nash ia ser muito bom. Ele havia conseguido bastante êxito e notoriedade com suas últimas descobertas matemáticas (a revista Forbes inclusive fez uma entrevista com ele como uma das maiores estrelas da matemática). Entretanto, Nash não se sentia satisfeito. Ele ainda estava esperando uma nomeação para Harvard ou Princeton, ainda não era um professor permanente no MIT, ainda não tinha uma cátedra e nem a prestigiosa e desejada medalha Fields[6]. Nasar afirma que o trigésimo aniversario de Nash causou uma espécie de dissonância cognitiva. Já no início de 1958 começaram a aparecer os primeiros sinais de que Nash efetivamente estava cruzando um limiar tênue e invisível. Nash confidenciou a um membro do departamento do MIT que havia resolvido a Hipótese de Riemann, uma espécie de Santo Graal dos matemáticos puros. Conforme Nash foi procedendo a explicação, o ouvinte foi tendo a impressão de que ele estava “excitado [...] Havia algo exagerado nas suas atitudes. Falava de maneira bombástica” (NASAR, 2002, p. 281).
Já no final de 1958, Alicia descobriu que estava grávida. Ao que tudo indica, foi desejo de Nash ter um filho tão cedo, pois, como já se sabe, ele associava casamento à geração de prole. Também nessa época, Nash começou a se dar conta de que não era mais capaz de acompanhar o ritmo de alguns membros do departamento que ele antes afirmava “estar no seu nível intelectual”.
Diversas evidências são citadas por Nasar indicando uma evolução da psicose de Nash. Por exemplo, em 1958, Nash, em companhia de dois outros membros do MIT, começou um monólogo comprido sobre ameaças à paz mundial e apelos por um governo mundial, dando a entender que ele próprio havia sido convocado a desempenhar algum papel extraordinário. Em outra situação, Nash afirmou que haviam mensagens criptografadas no New York Times dirigidas a ele, que só ele poderia decodificar e compartilhar com o mundo. Nash também tinha o hábito de mudar o rádio de estação para estação interminavelmente, pois achava que estavam transmitindo mensagens para ele. Durante uma de suas aulas, Nash deu a um de seus estudantes uma carteira de motorista vencida e escreveu o apelido do rapaz sobre o próprio nome. Chamando a carteira de "carteira de motorista intergaláctica", Nash disse que era membro de um comitê e que estava nomeando o estudante para ser encarregado da Ásia. Além disso, relata-se também que Nash começou a perceber homens com gravatas vermelhas no campus do MIT – e posteriormente todos os homens de gravatas vermelhas – como sendo mensageiros que faziam parte de um partido "criptocomunista". Na época Nash também escreveu uma carta dizendo que sua carreira estava sendo arruinada por "alienígenas do espaço exterior"[7]. Nash começou a escrever cartas estranhas também para embaixadores de vários países afirmando que Nash estava organizando um governo mundial e já havia inclusive um comitê formado por alunos e colegas do departamento. Num outro momento, Nash remeteu uma carta recusando um cargo importante que lhe havia sido formalmente oferecido no departamento de matemática da Universidade de Chicago porque deveria tornar-se "Imperador da Antártida." Além disso, Nash também afirmou que estava na capa da revista Life, “que sua fotografia havia sido retocada para dar a impressão de que era o papa João XXIII. [...] ele sabia que a fotografia [...] era realmente dele [...] porque João não era o nome verdadeiro do papa, mas um nome que ele escolhera [...] [e] porque o vinte e três era o ‘número primo favorito’ de Nash” (NASAR, 2002, p. 298-299).
Em 1959, Nash teve uma atitude que fez com que Alicia procurasse um tratamento para ele: Nash decidiu ir a Washington tentar entregar pessoalmente as cartas encaminhas as embaixadas. Nash teve a sua primeira internação em abril-maio de 1959. Fora levado, involuntariamente, ao McLean Hospital, um hospital ligado à Harvard Medical School. No inicio Nash estava furioso com o fato de sua própria esposa ter lhe traído, e inclusive ameaçou divorciar-se para tirar o pátrio poder dela. À pedido de Alicia (que organizou uma esquema de visitas com todos que ela conhecia acreditando que com o apoio dos amigos Nash logo estaria recuperado) algumas pessoas que visitaram Nash na época afirmaram a Nasar que ele dizia coisas bem razoáveis, chegando inclusive a dizer, um tom bem racional, que ele tinha consciência de que tivera delírios. Nash foi diagnosticado como psicótico esquizofrênico paranóico e a gravidez de Alicia foi considerada o maior elemento deflagrador de sua crise.
Alicia passou a encarar a gravidez como um problema, como um perigo para Nash, de forma que todas as suas atenções estavam voltadas exclusivamente para a saúde do marido. Não havia qualquer investimento libidinal (como diria Freud) no filho que iria nascer – enxoval, preparação psicológica para recebê-lo, etc. De fato, Alicia chegou inclusive a pedir que médicos adiantassem o parto, para que os problemas acabassem logo[8].
Durante o período em que ficou internado, John Nash recebeu a visita do professor de Harvard George Mackey. Após um período de silêncio constrangedor, Mackey, sem conseguir se conter – e tentando ao máximo ser gentil – questionou: “como é que você pode, um matemático, um homem dedicado à razão e à prova lógica... como é que você pode acreditar que extraterrestres estão lhe enviando mensagens? Como é que você pode acreditar que está sendo recrutado por alienígenas do espaço para salvar o mundo? Como é que você pode...?” (NASAR, 2002, p. 13-14). Nash, frio e vagarosamente, respondeu: “Porque as idéias que eu tinha sobre seres sobrenaturais vinham a mim da mesma forma que minhas idéias matemáticas. De modo que as considerei seriamente” (NASAR, 2002, p. 14).
Seja por conta dos medicamentos que tomava, do confinamento ou do desejo de recuperar a liberdade, o fato é que os sintomas psicóticos de Nash desapareceram em semanas. A hipótese mais acreditada na época entre os psiquiatras do hospital era de que Nash rapidamente percebeu quais eram as regras do jogo e que eram necessárias provas convincentes de que ele ainda podia fazer mal a si próprio ou a outras pessoas para mantê-lo sob custódia. Logo contratou um advogado para entrar com petição para sua liberação e esse por sua vez contratou um famoso psiquiatra da época para examinar Nash. Esse psiquiatra concluiu que, uma vez que Nash não tenha falado de quaisquer delírios ou alucinações, não havia sentido em manter Nash internado. Nash saiu do hospital uma semana após o nascimento de seu filho.
Assim que saiu do hospital Nash foi visitar o filho na maternidade, no Boston Lying-In Hospital. Nash pegou um guardanapo, foi até o cartaz onde estava escrito o nome do hospital e cobriu o “In” de modo que o nome ficou sendo “Boston Lying Hospital”, insinuando que Alicia estivesse mentindo.
Naquele ano Nash também começou a ter o delírio de querer ir para a Europa para, seguindo os passos de um piloto de bombardeios amplamente noticiado na época (em 1948), renunciar a cidadania americana, dando inicio a um governo mundial[9]. Quando teve seus pedidos de renúncia negados, Nash chegou a jogar seu passaporte fora e se considerar um apátrida. Esse delírio foi logo percebido pelos que cercavam Nash, que constataram que a internação pouco tinha feito para frear o avanço da doença.
Em 1961, Nash foi novamente internado, dessa vez em um hospital público. Pouco tempo depois, recebeu alta. Em sua autobiografia Nash comenta que para alguém que passou meses e anos sentindo que tinha conhecimento secreto de insights cósmicos, até mesmo divinos, a ausência desses em prol de pensamentos mais racionais produzia uma sensação de diminuição e perda. Contudo, as melhoras de Nash eram sempre aparentes e duravam muito pouco, de forma que, em 1962, Nash foi internado novamente. Nash novamente reagiu rapidamente ao tratamento. Recebeu alta, ficou aparentemente bem por um tempo e novamente começou a apresentar os seus delírios de forma que Alicia requisitou, mais uma vez, a sua internação. Essa internação foi na mesma época do pedido de divórcio de Alicia, que já não conseguia mais lidar com a doença de Nash.
Ao receber alta, em 1965, Nash sentiu-se terrivelmente só; sentia falta de Alicia e de John Charles. Percebia com clareza o seu novo status, mais humilde, na hierarquia matemática. Nash começou a consultar-se com um psiquiatra que receitava antipsicóticos em doses mínimas necessárias. Quase toda semana Nash visitava Eleanor e John David, agora já com 12 anos. Entretanto, Nash tinha a percepção de que sua longa separação do filho provocara um abismo que ele não sabia transpor. Para John David, o súbito aparecimento do pai na sua vida foi uma coisa boa, que fez com que ele se empenhasse mais na escola. A essa época, Nash, inclusive, havia prometido a ele pagar seus estudos universitários, pois seu passado educacional moldaria todo o curso de sua vida. Apesar da aproximação com Eleanor, cabe ressaltar que Nash ainda não havia perdido completamente a esperança de reconciliar-se com Alicia.
O renomado apetite de Nash pela vida ficou mais evidente na energia com que ele se lançou ao trabalho naquele ano. Sua produtividade elevou-se drasticamente, provocando uma torrente de autoconfiança que possivelmente facilitou o desencadeamento de uma nova crise. Quando os sintomas começaram a se acentuar, Nash teria dado a entender para algumas pessoas que ele havia parado de tomar os medicamentos, pois tomando-os ele parava de escutar vozes – vozes que o confundiam e vozes que o iluminavam.
De fato, as grandes soluções de desafios matemáticos feitas por Nash estavam, de certo modo, associadas à psicose. Não era apenas porque sua mente trabalhasse mais depressa, que sua memória fosse mais firme ou que seu poder de concentração fosse maior. Os lampejos de intuição de Nash não eram racionais. Nash primeiro tinha a visão, e somente muito depois construía as trabalhosas provas. Na biografia de John Nash escrita por Sylvia Nasar existem diversos relatos indicando que era muito comum Nash passar horas e horas a frente de um quadro com algum desafio matemático para só depois de ter tido o seu insight começar a escrever algo. (Isso estaria relacionado também a pouca destreza de John com a caneta, uma característica sua desde criança, segundo os relatos de sua irmã Martha).
Em 1969, pouco tempo após a morte de sua mãe, Virginia, Nash foi novamente internado – dessa vez por sua irmã, que não o agüentava mais em casa. Quando teve alta, após 2 meses, Nash escreveu uma carta para a irmã rompendo relações com ela e voltou para Princeton.
Foi também nessa época (em 1970) que Alicia resolveu voltar para Nash. “A mãe dele morrera, a irmã não podia aceitar aquele fardo. Alicia era, divorciada ou não, sua esposa. [...] Ela simplesmente não estava disposta a virar-lhe as costas” (NASAR, 2002, p. 415). De qualquer forma, parecia que o quadro de saúde de Nash tinha se estabilizado. Sobre essa remissão, Nash afirma:
Eu finalmente renunciei a minhas hipóteses delirantes e voltei a pensar em mim mesmo como um ser humano em condições convencionais e retomei a minha pesquisa matemática. Nesses interlúdios, por assim dizer, de racionalidade forçada eu prossegui fazendo algumas pesquisas matemáticas respeitáveis (...) eu tornei-me uma pessoa de pensamento influenciado por delírios, mas de comportamento relativamente moderado, tendendo, assim, a evitar a hospitalização e a atenção direta de psiquiatras (...) Aos poucos eu comecei a rejeitar intelectualmente certas linhas de pensamento influenciadas pelo estado de delírio, que tinham sido características de minha orientação (...) eu emergi do pensamento irracional no fim das contas sem nenhum remédio, a não ser as alterações hormonais naturais dói envelhecimento. (NASH, 1995)
A rotina de Nash passou a incluir muitas horas no campus de Princeton, esboçando soluções para desafios matemáticos nos quadro negros. Nasar afirma que ir ao quadro negro exigia coragem para compartilhar idéias que ele achava importantes e que ainda assim poderiam parecer malucas para os outros, revelando também um certo desejo de estabelecer ligações coma comunidade como um todo. Princeton funcionou para Nash como uma comunidade terapêutica, proporcionando-o segurança, liberdade e amigos.
Em 1978, por indicação de um antigo amigo de Nash que achava que aquilo de alguma forma poderia ajudar a Alicia e seu filho, Nash recebeu um prêmio de matemática. Entretanto, Nasar revela que Nash não foi convidado para a cerimônia de entrega do prêmio em Washington. O segundo membro da comissão de avaliação foi até Princeton entregar pessoalmente o prêmio a Nash. Para ele, “ver esse homem que era um gênio agindo agora a nível de pré-adolescente foi realmente uma coisa trágica” (NASAR, 2002, p. 414).
No final da década de 80, Nash andava diariamente pelo campus de Princeton. Estava sempre solitário, calado e carregando uma pilha de jornais velhos recortados. Algumas pessoas que o conheciam chegavam a cumprimentá-lo quando o viam, porém sem esperar qualquer resposta. Uma dessas pessoas era Freeman Dyson, renomado teórico da física. Um certo dia Dyson costumeiramente cumprimentou Nash e, para sua surpresa, obteve como resposta “vejo que sua filha está no noticiário de novo”. Dyson ficou pasmado com o aparente despertar de Nash. Ele, que nunca tinha ouvido Nash falar, ficou surpreso por este não só o reconhecer como também a sua filha, uma autoridade freqüentemente citada em assuntos de computação.
Na primeira semana de outubro de 1994, Harold Kuhn, professor de matemática e amigo mais íntimo de Nash desde que ele tornara-se mais acessível, conhecido na época da pós-graduação em Princeton, informou a Nash uma notícia surpreendente. Repetindo as palavras que havia ensaiado com cuidado, disse – enquanto Nash recusava-se a olhar diretamente para Kuhn, como de costume: “Tenho uma coisa para lhe contar, John. Você deverá receber um importante telefonema em casa, amanhã de manhã, provavelmente por volta das seis horas. A chamada virá de Estocolmo. Será feita pelo secretário-geral da Academia Sueca de Ciências. Ele vai lhe dizer, John, que você ganhou o prêmio Nobel”.
Bibliografia
CORREIO Brasiliense. Oscar 2002. Entrevista/ Sylvia Nasar. (Adaptada da entrevista divulgada no site no.com.br). Brasília, domingo, 24 de março de 2002.
NASAR, Sylvia. Uma mente brilhante. Rio de Janeiro: Record, 2002.
NASH, John. Autobiography. In Les Prix Nobel. The Nobel Prizes 1994, Editor Tore Frängsmyr, Stockholm: Nobel Foundation, 1995.
QUINET, Antonio. O refugiado dos símbolos falsos in QUINET, Antonio, Psicose e laço social. Rio de Janeiro: Jorge Zahar, 2006.
[1] Cabe aqui ressaltar uma entrevista com Sylvia Nasar no qual ela nega, contudo, que Nash seja homossexual. De acordo com a autora: “Algumas pessoas leram o livro por alto e saem dizendo coisas que não estão escritas. Nash se envolveu emocionalmente com vários homens na época em que tinha 20 anos. Ele não é gay. Não escrevi e nenhuma fonte me disse que Nash fez sexo com homens”. De fato, ela escreve no livro que Nash tinha “atrações por homens”, “se envolvia afetivamente com homens” e “foi preso acusado de atentado ao pudor numa armadilha policial”, mas não escreve explicitamente que ele fez sexo com outros homens CORREIO Braziliense, 2002).
[2] A complexa solução de Nash foi comprovada em 1994 durante um leilão em que o governo americano vendeu licenças para o uso de ondas de rádio para companhias particulares. Ao lado do Estado e dos compradores estava um exército de economistas a aplicar as teorias do equilíbrio de Nash. Diante de uma platéia seleta, as idéias de Smith sobre competição perfeita com um número grande de compradores e vendedores não funcionavam. Em pauta, a informação. Em vez de ignorarem o quanto seus adversários valorizavam a compra, o leilão tinha por objetivo fazer com que os agentes revelassem o valor que davam ao item desejado. O resultado foi um Tesouro feliz e US$ 7 bilhões mais rico e compradores satisfeitos. Meses depois, outro leilão, na Nova Zelândia, tradicional, teve vencedores que pagaram preços mais baixos que seus lances e até mesmo um estudante que comprou por US$ 1 uma licença de televisão em sua cidade. A idéia de Nash provou que dava lucros.
[3] Cabe aqui ressalvar que o “equilíbrio de John Nash” enfrenta algumas críticas. Em “The Incompleteness of Theories of Games”, artigo publicado no “Journal of Philosophical Logic”, três pesquisadores brasileiros - Marcelo Tsuji, Newton da Costa e Francisco Doria - contestam a possibilidade real do equilíbrio de Nash, belo mas inexequível, pois impossível de ser calculado mesmo com o mais potente computador.
[4] É interessante notar que aviões de madeira era um dos poucos brinquedos pelo qual Nash se interessava quando criança (NASAR, 2002).
[5] No início dos anos 50 a polícia local vinha fazendo operações sigilosas e regulares ara atrais homossexuais e expulsá-los da cidade.
[6] Trata-se da mais alta distinção que um matemático pode receber de seus pares, equiparando-se a um prêmio Nobel (inexistente para essa área). A medalha é como um bilhete de admissão instantânea em cátedras de renome em universidades de primeiro escalão, generosos fundos para pesquisa e salários de estrelas. A escolha do ganhador da medalha era feita de quatro em quatro anos, através de nomeações e análise dos feitos pela banca avaliadora. (NASAR, 2002)
[7] Nasar (2002) afirma ser possível que o fato que o provocou essa estranha carta de Nash tenha sido o anúncio do vencedor do prêmio Bôcher de 1959.
[8] A pouca investida na criança em seus primeiros anos de vida pode ser percebida também pela demora a registrá-lo. Nash e Alicia não escolhiam um nome, chegando inclusive a chamá-lo de bebê Épilson (uma brincadeira entre matemáticos), até que por fim colocaram o nome de John, assim como o primeiro filho de Nash.
[9] Essas idéias de governo mundial e cidadania mundial estavam no auge na época em que Nash fazia seu curso de pós-graduação em Princeton e permaneceram na ficção cientifica(estilo literário do gosto de Nash) dos anos 50. (NASAR, 2002)


muito bom ,adorei a biografia!!!parabens
ResponderExcluirObrigada!
ResponderExcluirassisti o filme e fiquei interessada em saber ,sobre a biografia de Nash..
ResponderExcluirgostei muito de ler sobre a mesma...
Como ele é uma figura mt polêmica e extraordinariamente inteligente, existem alguns livros falam sobre a vida de John Nash. O livro da jornalista Sylvia Nasar, por exemplo, é uma biografia não-autorizada mas que talvez se deva dar mais crédito, pois ela conversou diversas vezes com John Nash, sua família e pessoas próximas ou importantes para a história. No entanto, dizem que Nash, ao ler o a obra finalizada, discordou de diversas partes, que segundo ele não seriam verídicas - tais como a aquelas que falam da sua tendência homossexual (comum em casos de psicose, diga-se de passagem).
ResponderExcluirEm todo caso, ainda que a biografia fosse escrita pelo próprio John Nash, ainda assim não poderíamos acreditar cegamente em tudo o que leríamos, pois sabemos o quanto é difícil lidar com as nossas próprias mazelas, não?
É por isso que, ainda que o próprio Nash tenha reclamado dessa biografia, considero a biografia feita por Nasar aquela que nos deixa mais próximo do John Nash - não somente daquele ilustre ganhador do prêmio Nobel, mas do John Nash como um todo, com todos os seus defeitos e qualidades.
Abraços, Daniela - e obrigada pelo comentário.
Adorei este resumo! Nossa, ficou ótimo!
ResponderExcluirAlguns pontos no livro achei que ficavam em aberto a aqui tive estes pontos respondidos.
Parabéns!
Obrigada, Monique!
ResponderExcluirFico feliz que tenha conseguido te esclarecer alguma coisa.
Abraços.
Amei o filme, e adorei ler mais um pouco do mesmo, também se fosse p falar de tudo tinha quer ser um seriado e não um filme. Pena que no filme,não citaram a primeira esposa e o primeiro filho.
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