terça-feira, 8 de junho de 2010

Uma mente brilhante




Creio que quase todos já assistiram ao filme “Uma Mente brilhante”. O filme conta a história do matemático John Nash desde o momento do ingresso no doutorado até receber a cátedra Nobel, em 1994. A julgar pelo filme, a história de John Nash resume-se basicamente a descobertas matemáticas, sendo todo o resto mero coadjuvante – na maioria das vezes, sem qualquer valor. Nash aparece como um sujeito bastante introvertido, cujas pequenas atitudes por vezes fogem totalmente à normalidade social, mas nada mais do que isso. Estuda, possui resultados extremamente satisfatórios e, depois, mergulha em trabalho. Eis, então, que Nash conhece Alicia, sua aluna por quem viria a se apaixonar e casar. O relacionamento entre os dois é tão romântico quanto um homem puramente racional poderia ser – pouco, convenhamos, mas é o suficiente para Alicia se apaixonar por ele e render ótimas cenas românticas à maneira Nash & Alicia. Os dois se casam apaixonados, nasce seu filho e Nash continua subindo na carreira, atingindo o respeitabilíssimo cargo de agente secreto dos EUA. 

Eis que a verdade vem à tona: Nash é esquizofrênico. A partir daí, o filme entra em território fortemente emocional, centrando-se na luta desesperada de Nash contra a esquizofrenia e no apoio fundamental e quase incondicional de Alicia. (Santa) Alicia chega mesmo a descumprir as recomendações médicas de que seu marido necessita novamente ser internado, pelo bem de sua própria vida e da de seu filho (que Nash quase matou graças às vozes que ele ouvia). As cenas finais do filme enfatizam bem o papel fundamental que Alicia possuiu na luta de John contra a doença: John Nash recebe o Nobel, discursa e, sob o olhar carinhoso da esposa, faz uma pequena e notória declaração de amor. 

O filme traz um olhar demasiadamente romântico sobre a vida de John Nash e sua luta contra a esquizofrenia. Apesar de ser um filme belíssimo esteticamente e com excelentes roteiro e atuações, o espectador mais atento a história de John Nash ficará com muitas lacunas, as quais nem de longe o filme tenta preencher. A infância de Nash, por exemplo, não é de forma alguma mencionada, mesmo sendo boa parte do filme centrada na luta dele contra a esquizofrenia. Essa ausência causa prejuízo inegável a todos os que quiserem entender um pouco mais sobre a esquizofrenia baseando-se no caso verídico mostrado no filme. 

Além disso, a mudança da personalidade da personagem Alicia ao longo do filme também é bastante intrigante. De repente uma mulher muito madura, inteligente, com grandes ambições profissionais (afinal, cursava doutorado no MIT!) se transforma em uma esposa, dona-de-casa, devota ao marido e filho – assim mesmo, num piscar de olhos chamado “noivado relâmpago”. 

Bem, essas lacunas na história se tornaram muito incômodas quando analisei o filme intencionado compreender o quadro de esquizofrenia de John Nash e acabei lendo a biografia não autorizada de Nash no qual o filme se baseia. De título homônimo ao filme, o livro foi escrito pela jornalista Sylvia Nasar, que colheu relatos do próprio John Nash, da Alicia e de diversas pessoas que conheceram eles. O retrato final é totalmente diferente do filme. Excêntrico, perturbado, homossexual, agressivo, nazista, narcisista, apático, superficial, anti-social, são só alguns dos adjetivos que podem designar John Nash de acordo com as informações de Sylvia Nasar. 

Tanto um filme quanto um livro dificilmente oferecem um retrato muito fiel da realidade, até porque a realidade muda conforme o olhar do observador. No entanto, a biografia de Nasar oferece mais do que suas considerações sobre a personalidade de John Nash: ela se propõe a revelar fatos, situações ocorridas e lembradas por diversas pessoas. Tanto o filme quanto o livro foi feito consultando John Nash, embora John Nash tenha afirmado estar mais satisfeito em relação ao filme do que ao livro e inclusive criticado muitas das informações contadas por Nasar, que segundo ele seriam falsas (tais como a sua homossexualidade). 


O filme traz uma versão romântica da história, já o livro explora a vida de John Nash de maneira tão fria que chega a ser angustiante. Caso alguém queira se aventurar pelo lado mais sombrio da vida do ilustre John Nash, postarei no blog um longo resumo (não resenha, resumo mesmo) das quase 500 páginas do livro “Uma mente brilhante”, de Sylvia Nasar, intercalado com informações tiradas de textos do próprio John Nash. Mas aviso desde já que o leitor estará sujeito a perder todo o efeito de encantamento pela figura de John Nash tal como mostrada no filme. Os que se aventurarem, no entanto, terão nas mãos um denso material para fomentar discussões.

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