Sem dúvida alguma, Skinner foi um dos mais influentes psicólogos do século XX. Ele introduziu a análise do sujeito como seu próprio controle; as contingências de reforço, como instrumentos de análise funcional das relações comportamentais com o meio ambiente e a taxa de respostas como uma medida comportamental importante. Tratou o comportamento como um evento natural, com regularidade e passível de ser estudado cientificamente. Pouca gente sabe, no entanto, do interesse de Skinner pela leitura e escrita. A primeira graduação de Skinner foi em literatura e ele até tentou seguir a carreira de escritor, mas de fato só publicou um único romance: Skinner Walden Two: uma sociedade do futuro, publicado em 1948.
A escolha de Walden Two para intitular o livro não foi um mero acaso. Na verdade, trata-se de uma associação intencional ao livro Walden ou “A vida nos Bosques”, escrito por Henry David Thoreau. Em Walden, Thoreau defendeu a desobediência civil pacífica, inspirando personalidades como Gandhi a resistir contra a opressão. Thoreau defende em seu livro que as pessoas devem examinar seus respectivos comportamentos e modificá-los caso eles não as agradem, simplificar as suas necessidades de possuir posses e que o governo não é o instrumento ideal para modificar culturas. Todos esses aspectos também são amplamente discutidos por Skinner, porém não de forma individualista como em Walden, mas, sim, visando à comunidade.
Utilizando-se de uma linguagem simples e sedutora, Skinner nos transporta diretamente ao seu mundo ideal, onde toda a sua teoria behaviorista desenvolvida e defendida até então foi aplicada. Segundo o próprio autor, o livro constitui uma aventura de autoterapia na qual ele se esforçou para reconciliar dois aspectos do seu próprio comportamento, representados por Burris e Frazier (os principais personagens do romance).
O romance começa com o encontro do professor Burris com seu antigo aluno do curso de psicologia (Roger) e um amigo dele (Steve) que, então, lhe manifestaram seus desejos de mudar as suas respectivas realidades. Com esse intuito, é comentado que um artigo antigo reportou um projeto de comunidade planejada segundo os moldes das teorias comportamentais – Walden II. Burris logo associa esse projeto aos planos de um antigo colega (Frazier) e resolve entrar em contato com ele para saber se ele conseguiu concretizar tal comunidade. Frazier o informava que sim e faz um convite para que Burris e seus amigos visitem a comunidade. O convite é aceito e Frazier os introduz a Walden II, explicando-lhes as particularidades da comunidade planejada e criada por ele.
Trata-se de um mundo no qual as pessoas convivem pacificamente, se mantêm produzindo o necessário a sua sobrevivência, divertem-se através de atividades culturais e jogos, consomem apenas uma parte razoável dos recursos do mundo, reduzem ao máximo possível à sua poluição, têm somente o número de filhos que podem criar decentemente, possuem uma excelente qualidade de vida, continuam a explorar o mundo ao seu redor e a descobrir modos melhores de lidar com ele e vem a se conhecer com precisão, e, portanto, controlam-se efetivamente. B.F. Skinner, através de Frazier – um dos protagonistas desse romance -, conseguiu tais feitos através do condicionamento operante, no qual o comportamento operante é fortalecido ou enfraquecido pelos eventos que seguem a resposta.
A possibilidade de se garantir a sobrevivência de Walden II encontra-se diretamente relacionada à possibilidade de desenvolver um ambiente social repleto de reforçadores selecionados de forma que façam com que o comportamento não apenas seja controlado pelas suas conseqüências imediatas, como também pelas conseqüências em longo prazo. É uma sociedade caracterizada por uma maleabilidade que permita a ela identificar e solucionar seus problemas, de forma eficaz, e até mesmo ser capaz de antever seu futuro. Para isso, foi necessário criar e cultuar práticas sociais que levassem em consideração o controle do ambiente físico e do ambiente social sobre o comportamento humano. Foi preciso também que tais práticas considerassem as suas próprias conseqüências, para os indivíduos, a comunidade e o ambiente.
As técnicas da “engenharia comportamental” eram utilizadas desde cedo nos habitantes de Walden II. São impostos às crianças obstáculos, cuja dificuldade aumenta gradativamente e conseqüências são previsíveis, visando auxiliá-las a desenvolver um maior autocontrole sobre seus pensamentos, comportamentos e suas emoções. Tais obstáculos abrangem desde orientar as crianças a não lamberem um pirulito até tirar a sorte na moeda para ver qual das duas crianças que chegaram a casa após um longo passeio, cansadas e famintas, desfrutará do almoço imediatamente e qual terá que esperar cinco minutos em silêncio para fazê-lo. No último exemplo, se existir alguma emoção negativa, ela deverá ser dirigida contra a moeda lançada e não contra o seu próximo. Através de várias técnicas da “engenharia comportamental”, sentimentos como inveja, desconfiança e aborrecimento são neutralizados ainda na infância, a fim de facilitar a vida em comunidade. A educação das crianças é, então, submetida aos cuidados comunitários – e não dos pais, como ocorre normalmente – pois se afirma que o controle do comportamento é uma ciência complexa (tanto em seu entendimento quanto na aplicação prática) e o ambiente familiar tradicional não é o local ideal para aplicá-la.
Ao escrever um livro no qual debate tão amplamente sobre a “engenharia comportamental” aplicada ao ser humano, Skinner certamente foi além do seu tempo. Na época em que escreveu o livro, não havia qualquer estudo experimental sobre o comportamento humano, sendo impossível prever seus resultados. Os primeiros experimentos datam do inicio da década de 50, porém somente começaram a serem aplicados na psicoterapia e na educação na década de 60, quase vinte anos após o lançamento do livro.
Indubitavelmente, a sociedade idealizada por Skinner possui um caráter nitidamente utópico. No entanto, isso não impediu que vários grupos de pessoas se inspirassem a tentar construir comunidades semelhantes. Duas delas existem até hoje: Los horcones, em Sonora (México), e Twin oaks, em Virgínia (EUA). Para elas, o sonho virou realidade – ao menos em parte.
Imagine no possessions
I wonder if you can
No need for greed or hunger
A brotherhood of man
Imagine all the people
Sharing all the world
You may say,
I'm a dreamer
But I'm not the only one
I hope some day
You'll join us
And the world will be as one
(Imagine, John Lenon)


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