sexta-feira, 10 de setembro de 2010

Por que a imprensa erra?








É fato que muitas vezes a imprensa comete equívocos, tanto na forma de apresentação de informações como na própria produção dos conteúdos. Tal fato nos faz pensar sobre os motivos pelos quais os profissionais da imprensa cometem tantos equívocos. Pensando em responder a essa pergunta, apresento uma pesquisa realizada pelo professor do Departamento de Jornalismo da Faculdade de Comunicação da Universidade de Brasília, Luiz Martins da Silva, que objetivou justamente responder a essa pergunta. Partindo da análise de 100 casos em que a imprensa agiu erroneamente, o professor elaborou 12 categorias de erros presentes nas matérias jornalísticas. 


Vejamos quais são essas categorias e alguns exemplos elencados no estudo. Quem sabe a análise dos erros mostre aos jornalistas o caminho para uma mídia mais responsável... 


1. Contingenciamento. A imprensa erra por um contingenciamento natural, intrínseco à sua corrida contra o tempo, conjugado a dois fatores: a) cultura profissional; e b) cultura concorrencial, sendo o primeiro relacionado a um certo sentimento de onipotência das reportagens, que não admitem que um fenômeno de natureza factual não possa ser apurado; e, o segundo, que determina que o prazo máximo disponível para a apuração é o que resta até o fechamento da edição, seja do telejornal (algumas horas) 
2. Mitos. A imprensa erra, quando não consegue ultrapassar um certo infantilismo mítico, caracterizado, sobretudo, por duas espécies de sobredeterminações inerentes à natureza mítica do acontecimento mediático e que condicionam os seu processo de “apuração”. É improvável que um noticiário peça desculpas aos leitores por não apresentar ainda, naquela edição, determinado fato, dado que a reportagem ainda não tenha conseguido chegar a uma versão final e segura do mesmo. 
3. Sensacionalismo. A imprensa erra por não traçar, a priori, uma delimitação entre dois campos: o interesse público e o interesse do público, freqüentemente, trocados um pelo outro ou emaranhados um com o outro, sendo que o primeiro é pouco afeito a mitologizações e mistificações, ao contrário do segundo, cuja força mediática é proporcional ao estranhamento próprio das narrativas de estrutura mítica. 
4. Controle de qualidade. A checagem das informações é uma cultura profissional existente, mas difusa no cotidiano das redações. 
5. Rotinas produtivas. A imprensa erra em decorrência de hiatos entre a apuração, a edição e a responsabilidade publicação dos fatos. Não é rotina produtiva o editor consultar o repórter sobre os acréscimos e supressões nos textos. 
6. Fontes. A imprensa erra quando confia cegamente nas fontes, principalmente, as fontes de fé pública, como se estas dispensassem as suas próprias investigações. 
7. Furos. A imprensa erra quando confia nos concorrentes, ou seja, quando uma redação, pautada por um suposto ‘furo’, corre atrás do prejuízo e segue adiante, nem sempre checando a procedência das informações originalmente publicadas. 
8. Descuidos. A imprensa erra quando não se apercebe ‘em tempo’ de falhas. Também não há um controle a posteriori, a não ser quando sobrevêm as conseqüências. 
9. Ocultamento. A imprensa erra quando esconde ou minimiza os seus próprios erros. Muito raramente, os órgãos de imprensa concedem, espontaneamente, o mesmo espaço para desmentidos e pedidos de desculpa. 
10. Decoro. A imprensa erra por desrespeitar os códigos de ética da própria categoria. Seriam erros relativo ao decoro profissional. 
11. Transgressão. A imprensa erra quando, por imperícia ou inadvertência, desrespeita a Lei, sejam os instrumentos legais pertinentes à imprensa (Lei de Imprensa e leis relativas ao campo da radiodifusão e da publicidade), sejam as disposições legais genéricas (Código Penal, Estatuto da Criança e do Adolescente, Lei Afonso Arinos etc 
12. Crime. Quando a imprensa erra conscientemente, tipifica ação dolosa. Já não é erro, é crime. Já não é o jornalismo, é delinquência.


Alguns dos casos de erros da mídia identificados e estudos nesta pesquisa: 

1. Maestro – “abuso sexual”. Em São Caetano (PE), a 17 k de Caruaru (PE), o maestro Arlindo Mozart Vieira do Nascimento montou uma orquestra com a participação de crianças pobres. Posteriormente, o maestro ganhou notoriedade pela falsa acusação de ter abusado sexualmente de uma das crianças. Maestro e orquestra foram por água abaixo por causa de um boato (Categoria 6 – Fontes).
2. “Estuprador da filha”. Em meados de 2000, a Rádio CBN noticiou um caso ocorrido em Alagoas de imputação falsa de crime. Um homem fora acusado de estuprar a própria filha, uma criança. O pai, inocentado, teria confessado o crime sob tortura (Categoria 6 – Fontes).
3. Delegada “assassina”. Em Brasília, em 1997, uma delegada de polícia foi acusada pela reportagem do Correio Braziliense de ter sido responsável pela morte de uma criança atropelada. Segundo a delegada, a criança já estava morta, razão pela qual ordenou que o corpo fosse mantido no local, para a realização da perícia. Na reportagem publicada ela foi retratada como responsável pela morte da criança (Categoria 4 - Controle de qualidade).
4. Matilde Borges. A polícia de São Paulo acusou Matilde Borges, e sua filha K., de 16 anos, de mandar matar o marido e pai. Quando se descobriu que o empresário Agenor Borges morrera num assalto, a imprensa sequer noticiou a inocência de Matilde e sua filha - à exceção da Folha de S. Paulo, em 13 linhas (Categoria 6 – Fontes).
5. Dr. Fritz. O médium e curandeiro Rubens Farias Júnior, do Rio de Janeiro, que diz incorporar o espírito do médico alemão Adolph Frederick Yerperssoven, foi acusado pela ex-mulher de ser o responsável pela morte de ‘clientes’ e da ocultação dos cadáveres dos mesmos. Não ficou comprovado, mas a reputação do médium ficou arruinada (Categoria 4 - Controle de qualidade).
6. Crime da Rua Cuba. O casal Jorge e Marília Cecília Bouchabki foi assassinado nesta rua de São Paulo, mas o caso não foi esclarecido. O erro da imprensa, no entanto, foi assumir como fato as suspeitas que recaíram sobre o filho do casal, o jovem Jorge Delmanto Bouchabki, à época com 18 anos, posteriormente inocentado. (Categoria 6 – Fontes).
7. “Assassino do pai”. No início de 1996, o dono da Agroceres e presidente da Associação Brasileira de Agribusiness (Abag), Ney Bittencourt, morreu em seu apartamento no bairro Jardins, em São Paulo, com um tiro. A perícia encontrou resíduos de detonação (chumbo, zinco e cobre) numa das mãos do filho do empresário, Frederico Araújo, mas admitiu a possibilidade de que fosse verdadeira a versão de que ele lutou com o pai na tentativa de evitar o disparo, que acabou ocorrendo. A despeito da polêmica, entre a polícia e a Justiça, esse foi mais um caso em que a imprensa concluiu, por conta própria, que uma pessoa era criminosa (Categoria 6 – Fontes).
8. Glória Pires. Vítima de um boato de que o seu marido havia abusado sexualmente da filha do primeiro casamento. Processou os veículos de imprensa que reproduziram a versão. (Categoria 3 - Sensacionalismo).
9. Escola Base. Na noite de 4.3.94, o Jornal Nacional, da Rede Globo, exibiu uma reportagem em que pais de alunos da Escola Base, situada no bairro da Aclimação, em São Paulo, acusavam diretores e professores de abusar sexualmente das crianças. Toda a imprensa brasileira noticiou o caso. Em apenas dez dias de investigações, o delegado responsável pelo caso concluiu que os acusados eram culpados por violento atentado ao pudor e formação de quadrilha. Posteriormente, as acusações tornaram-se infundadas. (Categoria 6 – Fontes).
10. Fontes científicas. Raramente são questionadas. Em junho de 2000, telejornais da Globo News (canal a cabo, da Rede Globo) e O Globo noticiaram que um dentista teria descoberto que o flúor faz mal à saúde. A notícia foi contestada por leitores e pesquisadores (Categoria 8 – Descuido).



FONTE: Silva, Luiz Martins da. Por que a imprensa erra ? – 100 casos e algumas hipóteses. X Encontro Anual dos Programas de Pós-Graduação em Comunicação, 2001. 




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