Fiquei sabendo hoje, por intermédio do site da revista Veja, que o Ministério da Cultura está promovendo uma enquete em seu site para que o povo possa eleger qual é o filme brasileiro que deve ser indicado para concorrer ao Oscar de melhor filme estrangeiro no ano que vem. Achei a iniciativa muito boa, pois finalmente temos voz para escolher o nosso representante na corrida. Com isso, estamos com a faca e o queijo nas mãos para evitar as indicações desastrosas que são comumente feitas pelo Ministério – ou não. Antes de votar, dei uma olhada no resultado parcial desses três dias de votação. Os filmes que estão concorrendo são os seguintes: Nosso Lar, Chico Xavier, Antes que o mundo acabe, O Grão, Lula, o Filho do Brasil, Os Famosos e os Duendes da Morte, Cinco Vezes Favela, Agora Por Nós Mesmos, As Melhores Coisas do Mundo, Reflexões de um Liquidificador, Bróder, A Suprema Felicidade, É Proibido Fumar, O Bem Amado, Quincas Berro D’água, Em Teu Nome, Carregadoras de Sonhos, Sonhos Roubados, Olhos Azuis, Utopia e Barbárie, Cabeça a Prêmio, Os Inquilinos, Hotel Atlântico e Ouro Negro. Tem filmes para todos os gostos, não?
Confesso que obviamente não vi todos esses filmes – menos da metade, vi 5 dos 25 listados, para ser mais exata: Chico Xavier, Cinco vezes favela, Agora por nós mesmos, As melhores coisas do mundo, Olhos azuis e Cabeça a prêmio. Ok, não posso julgar todos os filmes e posso estar cometendo alguma injustiça com outros filmes que eu não tenha visto ao preteri-lo em minha indicação para o Oscar. Mas, francamente, acredito que nenhum cidadão normal tenha visto os 25 filmes listados, até porque eles, por serem brasileiros, normalmente só entram no circuito mais cult e ficam pouco tempo em cartaz, dado o baixo retorno de público em comparação com os demais. Por isso, já dei meu voto lá no site para escolha do melhor filme e compartilharei aqui os meus critérios.
Cabeça a prêmio – O filme possui um enredo bom, incomum, contando a história de um grande traficante de cocaína brasileiro, que também é um grande latifundiário. Porém a história perde um pouco o sal ao mostrar também os conflitos dos dois matadores que trabalham para o traficante. Acho que deveriam ter focado em uma das histórias (a do traficante, por ser mais densa) e passado mais rápido pelas outras. Acredito que o diretor tenha exposto as duas histórias quase com o mesmo empenho porque para ele as duas histórias se cruzam de forma que é indispensável você conhecer as duas para entender os acontecimentos. Mas essa indispensabilidade não fica evidente nem no final.
Olhos azuis – já escrevi um post sobre este filme aqui no blog, portanto farei apenas um breve comentário. A história do passado é muito boa, mas a do presente, passada no Brasil, é totalmente dispensável e empobrece a trama. É um filme metade muito bom, metade dispensável, e precisaria ser todo bom para indicar.
Chico Xavier – é um filme muito bom, também escrevi um post motivado pelo filme na época em que o vi. As atuações são boas, o roteiro, os cenários, tudo é bom. Mas como é uma competição para um só vencedor, ele ficou abaixo dos dois seguintes na minha lista.
As melhores coisas do mundo – É um filme excelente, muito denso, que possibilita inúmeras discussões interessantes sobre os temas abordados e as cenas. É um ótimo material para análise da sociedade atual, na medida em que os próprios adolescentes palpitaram em todos os aspectos do filme. Escrevi um post sobre ele e discuti várias vezes sobre assuntos suscitados pelo filme ou utilizei-o como embasamento. Infelizmente, como a disputa é dura, a minha indicação vai para o próximo filme.
Cinco vezes favela, agora por nós mesmos – Vi nesta semana e ainda não tive tempo de escrever sobre ele. Quando terminei de vê-lo tive certeza de que ele entraria para a minha lista dos melhores filmes do ano, então era fato que estaria na lista dos melhores filmes nacionais. Para começar, o filme é uma composição de cinco curtas de diversos gêneros, portanto, apesar de serem todos sobre a vida na favela ou do morador de favela (ou comunidade, como prefiram), eles possuem abordagem bem diferentes: há humor, há suspense, há muito drama, há romance, ... há um pouco de tudo, o que faz com que o filme fuja à mesmice de colocar a vida na favela como dura e ponto ou como pura noção de comunidade entre os indivíduos. São diferentes visões realistas, afinal, favela não é um lugar homogêneo, há disparidades que o expectador perceberá, decorrentes tanto da própria subjetividade como do local onde a favela se situa – afinal, convenhamos, ser favelado no leblon é melhor do que ser favelado na av. Brasil. Esse filme, mais do que ter contado com os próprios moradores dos locais para a elaboração do seu roteiro, foi quase que inteiramente realizado pelos próprios moradores, através das oficinas de cinema existentes nestes locais. Isso obviamente fez com as histórias nos passassem um teor de veracidade muito grande – do tipo que dificilmente seria encontrado em um filme produzido por pessoas que nunca viveram naquelas realidades (lembremos sempre que favelas são diferentes). É, sem dúvida, um filme para brasileiros e estrangeiros curtirem.
PS: “Nosso lar” está com larga vantagem na votação. Ainda não vi o filme, mas vi o trailer e através dele tive a impressão de que as atuações são muito forçadas, com um caráter quase didático, e os cenários são imensamente artificiais, tal qual num filme de ficção com baixo orçamento. Nunca imaginei que do outro lado da vida você precisaria de uma tela de cinema ou de laptop para ver as coisas desse lado. Talvez até veja o filme, para afirmar ou negar as primeiras impressões, acreditando que a primeira hipótese seja muito mais provável. Essa votação atenta para a necessidade de instrução popular, para que o povo pare de se deixar levar por crenças religiosas no ato do voto. As eleições estão aí! Sejamos objetivos nos nossos critérios. Temos que votar no candidato que melhor atende aos requisitos necessários para o melhor filme (ou político), e não naquele que compartilha nosso credo.






FIquei mais curioso ainda pra ver 5xFavela agora. E no seu Top Worst, quer dizer que Cabeça a Prêmio ficou ainda abaixo de Olhos Azuis? Ah, não foi tão ruim assim vai...
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