Juro, no exercício das funções de meu grau, assumir meu compromisso com a verdade e com a informação. Juro empenhar todos os meus atos e palavras, meus esforços e meus conhecimentos para a construção de uma nação consciente de sua história e de sua capacidade. Juro, no exercício do meu dever profissional, não omitir, não mentir e não distorcer informações, não manipular dados e, acima de tudo, não subordinar em favor de interesses pessoais o direito do cidadão à informação.
A citação de abertura deste post, o juramento dos profissionais de jornalismo, traz em seu bojo o ideal de integridade para com a verdade, a informação e os cidadãos que todo jornalista deve seguir. A princípio, a tarefa parece ser simples: basta “não omitir, não mentir e não distorcer informações, não manipular dados e, acima de tudo, não subordinar em favor de interesses pessoais o direito do cidadão à informação”. Entretanto, a prática da profissão mostra que nem sempre é tão simples trazer verdades sem manipulações e sem ferir o direito à informação.
“A” verdade nem sempre está tão evidente; algumas vezes ela nem pode ser encontrada. Veja, por exemplo, o caso de um culpado por crime de assassinato não confesso e sem testemunhas. Alguém morreu – isso é um fato. Sob quais circunstâncias? Sendo um crime sem testemunhas, é imprescindível a investigação, que analisará prováveis vestígios e possíveis autores do crime (atente para os prováveis e possíveis, por favor). Aquele suspeito que tiver maior probabilidade de ser o culpado será julgado por um júri de cidadãos comuns, que ouvirão tanto os argumentos da defesa quanto da acusação e decidirão (por totalidade dos votos) pelo veredicto final. O júri decide pela punição do réu. Crime julgado, réu, culpado, assassino, condenado – mesmo alegando a sua inocência. Seria esse réu realmente culpado? Não temos como afirmar categoricamente que sim ou que não. Tal como Sartre nos mostra, “o ser de um existente é exatamente o que o existente aparenta. [...] O que o fenômeno é, é absolutamente, pois se revela como é. Pode ser estudado e descrito como tal, porque é absolutamente indicativo de si mesmo. [...] Tudo está em ato.” Se utilizarmos essa linha de pensamento para analisarmos o exemplo em questão, teremos clareza de que somente podemos afirmar categoricamente que o réu foi condenado por um crime, sem podermos utilizar da mesma certeza para analisarmos se a condenação, no que se refere a autoria do crime, foi justa ou não, uma vez que não podemos ter acesso a esse fenômeno (o ato criminoso) senão através de abstrações.
Imagine, agora, a seguinte situação: esse mesmo réu contrata um jornalista para escrever a sua biografia e dá acesso total a todas as pessoas e informações referentes a sua vida (inclusive, é claro, as referentes ao assassinato). O jornalista torna-se parte observadora de todas as discussões sobre a defesa do réu, bem como acaba por se tornar uma pessoa íntima do réu. Compartilham muitos momentos informais juntos, trocam cartas pessoais durante quatro anos. O jornalista se diz pessoalmente abalado pela condenação injusta do réu. Eis que é publicada a biografia tão aguardada (pelo público e pelo réu): doutor MacDonald “é um ser muito doente”, um “narcisista patológico” que matou sua esposa e suas duas filhas à sangue frio. Esta é a história real relatada pela jornalista norte-americana Janet Malcolm em seu livro “O jornalista e o assassino – uma questão de ética” (2011), no qual a autora busca abordar, com o máximo de compromisso para com os fatos, a ética jornalística a partir do processo movido pelo doutor MacDonald contra seu biógrafo Joe McGuiniss, por faltar com a “integridade essencial” da sua biografia. MacDonald sustentou durante o processo judicial que seu biógrafo usou de mentiras para ter acesso a informações sobre a sua vida que foram destorcidas de forma a concluir categoricamente que ele havia assassinado a sua família – uma ideia que ele sempre afirmou ser mentirosa.
REVELAR A VERDADE OU CRIAR A VERDADE?
Voltando ao juramento de colação de grau dos jornalistas, vemos que os jornalistas se comprometem a ter uma conduta íntegra durante a condução do seu trabalho em busca da verdade. Para a também jornalista Janet Malcom, essa tarefa certamente é fadada ao fracasso, posto que “qualquer jornalista que não seja demasiado obtuso ou cheio de si para perceber o que está acontecendo sabe que o que ele faz é moralmente indefensável”. Isso porque, na concepção da autora (e também jornalista), os jornalistas (sobretudo os biógrafos) dificilmente estão interessados na pessoa sobre quem escrevem, o interesse (e compromisso) deles é resguardado aos personagens e histórias que estão construindo.
Nem sempre a vida tal como ela é se faz atraente quando posta em uma folha de papel; às vezes é necessário usar certas artimanhas literárias para fazer os fatos ganharem a graça de uma ficção. Wambaugh, escritor de não ficção entrevistado por Janet Malcolm, chama a isso propriamente de escrever em “estilo romanceado”, dando vida aos personagens. A partir desse momento em que se decide dar vida aos personagens, o foco do trabalho do jornalista é não permitir que o entrevistado-personagem atrapalhe o término do trabalho, ainda que seja preciso deixar que o entrevistado-personagem se iluda sobre a natureza da relação jornalista-entrevistado (ou amigo-amigo, como alguns jornalistas fazem parecer e muitos entrevistados acreditam) e sobre as reais intenções do jornalista (um livro redentor ou um livro acusador?). Tudo isso respaldado no compromisso com a verdade que o público “tem o direito de saber”.
Para alcançar essa verdade, os jornalistas tentam desvelar a essência oculta dos fenômenos através de diversas interpretações dos fenômenos que aparecem a eles. Porém, é interessante lembrar mais uma vez que, conforme nos mostra Sartre, “a” verdade é aquela que se desvela em sua própria aparição, e não algo a ser desvelado por trás da aparência. O homem, entretanto, é livre para fazer o que quiser, inclusive para buscar a essência por trás das aparências, se assim o desejar. De fato, não podemos esquecer que o fazemos constantemente ao ler um romance, por exemplo, onde estamos sempre buscando interpretar aquelas palavras escritas no papel que, a princípio, revelam as suas essências por si próprias. Janet Malcolm reproduziu em seu livro um trecho da transcrição do julgamento de McGinniss que ilustra bem essa ideia, no qual o jornalista é interrogado pelo advogado de defesa de MacDonald sobre as suas intenções para/com MacDonald:
P: O senhor disse ontem... considerando as cartas dos primeiros seis ou nove meses após o julgamento, [que] nunca teve a intenção de enganá-lo... Depois dos primeiros seis ou nove meses, o senhor tinha a intenção de enganá-lo?
R: Bom, houve um momento, certamente, em que eu passei a estar disposto a deixar que ele continuasse acreditando no que queria, de maneira que ele não tentasse me impedir de terminar o meu trabalho, sim, senhor.
P: Então a resposta é sim?
R: Suponho que a resposta possa ser interpretada desse modo.
P: Por alguém que lesse as cartas por exemplo.
R: Bom, estou certo de que o senhor as interpretaria assim. Não sei... outras pessoas poderiam interpretá-las de outro modo.
A liberdade de cada um é um dos principais motivos das inúmeras percepções distintas sobre um mesmo texto. Entretanto, o jornalista que defina o seu trabalho como inteiramente compromissado com a verdade e, no entanto, utilize de sua própria imaginação para encontrá-lo recai no erro que Nietzsche já nos alertava sobre “a ilusão dos trás-mundo”. O compromisso, neste caso, está mais para/com a sua própria liberdade do que com a verdade. Contudo, isso não significa dizer que a história tal como contada pelo jornalista seja necessariamente mentirosa, caluniosa, tal como doutor MacDonald sustentou em seu processo contra o seu biógrafo McGinniss. “A essência da mentira, de fato, implica que o mentiroso esteja completamente a par da verdade que esconde”, afirma Sartre. No caso de McGinniss, ele não tinha o total conhecimento dos fatos referentes ao assassinato pelo qual MacDonald foi condenado. Tal como foi revelado em outra transcrição do mesmo julgamento, ele não pôde falar com ninguém que afirmasse saber quem foi o autor do crime, posto que as vítimas estavam mortas e MacDonald afirmava não ser ele, porém McGinniss sabia, “em seu coração”, que MacDonald havia cometido o assassinato.
Entretanto, McGinniss parece ter se esquecido que é justamente na diferença entre expor fatos e imaginar fatos que residem os gêneros literários de ficção e não-ficção. Janet Malcolm lembra no pósfacio de seu livro que “o escritor de ficção tem direito a mais privilégios”. Por ser uma história inventada e que é apresentada como tal, ele possui plena liberdade para fazer dela o que quiser. Já o escritor de não-ficção, tal como McGinniss, “tem com o leitor um contrato que o obriga a limitar-se a eventos que ocorreram de fato e às personagens que tenham equivalentes na vida real, e que não permite que ele enfeite a verdade sobre tais eventos ou personagens.”. Caso o escritor de não-ficção se distancie muito dos fatos, ele pode acabar cometendo um “assassinato da alma”, tal como MacDonald colocou em seu julgamento.
A temática “ética nos meios de comunicação” costuma sempre ser palco para grandes debates. De um lado, há aqueles profissionais da área que defendem o uso de meios eticamente condenáveis para chegar ao seu fim, tal como McGuinnis, que justificou ter deixado o seu entrevistado, contratante e protagonista se enganar a respeito das suas verdadeiras intenções (quando não o conduziu ao erro) objetivando “chegar até a verdade, com o propósito de contar uma história coerente”. De outro lado, há aqueles profissionais de comunicação que, mesmo sabendo que o seu trabalho envolve essencialmente algumas condutas “moralmente indefensáveis”, como afirma Janet Malcolm, tal como o de construir uma relação de confiança com o entrevistado para que ele lhe conte a sua vida e depois simplesmente sumir, tentam agir da melhor forma possível visando causar danos menores.
O livro de Janet Malcolm nos colocou dentro desse cenário da melhor forma possível: partindo de um processo judicial inédito nos Estados Unidos onde um personagem, criminalmente condenado, processou o seu biógrafo por fraude e quebra de contrato, subsidiando-se nas inúmeras cartas que atestavam que a “integridade essencial” da biografia (uma das cláusulas presentes no contrato profissional entre MacDonald e McGuinniss) seria mantida – leia-se: que a alegada inocência de MacDonald seria preservada. Através de diversos relatos de fatos e transcrições de documentos, temos acesso às justificativas dadas pelos profissionais para permitir algumas atitudes antiéticas, o impacto que as palavras dos jornalistas causam nos seus leitores e a ética presente na relação jornalista-entrevistado(personagem).
A grande questão que o livro de Janet Malcolm nos deixa no final é como o jornalista pode realizar o seu trabalho de maneira ética, sem precisar manipular os entrevistados-personagens, os leitores e a informação. Alguém se arriscar a esboçar uma resposta?

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