quarta-feira, 28 de setembro de 2011

"O jornalista e o assassino", de Janet Malcolm (continuando...)


Continuando a resenha do livro "O jornalista e o assassino", de Janet Malcom





Palavra ação 


A leitura do livro de Janet Malcolm deixa claro que, após o lançamento da biografia de MacDonald, muitas pessoas passaram a ter uma opinião absolutamente negativa sobre ele baseada exclusivamente nas palavras de McGuinnis. Algumas dessas pessoas chegavam mesmo a expressar as suas opiniões para o próprio MacDonald, através de cartas enviadas ao seu endereço na penitenciária. Em uma dessas cartas, reproduzida integralmente no livro de Janet Malcolm, o autor afirmava que, após ler o livro, tinha certeza de que MacDonald era “culpado”, “louco”, “tão doente, demente e sórdido”, “mentiroso de proporções ultrajantes”, “um lixo”, “um homossexual latente”, “veado impotente” e “maníaco pervertido”. Janet Malcolm teve oportunidade de conversar com MacDonald a respeito desse tipo de correspondência que ele recebeu diversas vezes enquanto durou o sucesso do livro e MacDonald afirmou que 

Isso faz parte do impacto negativo do livro de McGinniss. As pessoas que o leram acham que me conhecem, que entraram na minha cabeça. É nisso que está a maldade – não conheço outra palavra – do roteiro fabricado por ele [McGinniss]. Ele o moldou muito bem, e parece ser muito profundo. Mas ele estava moldando os fatos para adequá-los a uma opinião. Não estava moldando a opinião dele para adequá-las aos fatos.  

MacDonald apontou para um importante fato nesta fala: o impacto das palavras escritas no imaginário social. Um roteiro de um livro possui um poder de impacto muito maior sobre as pessoas do que uma pintura ou música sobre a mesma temática. Tal como Sartre nos lembra em seu texto “Que é a literatura”, trabalhar com palavras é bem diferente que trabalhar com cores e sons, posto que esses não são signos, ou seja, “não remetem à nada que lhes seja exterior”. Ainda que fosse feita uma representação imagética do julgamento de MacDonald, o autor desse quadro continuaria sendo “mudo”, para usar uma analogia de Sartre, ele nos apresentaria ao julgamento, mas teríamos uma abertura muito maior para interpretarmos aquela imagem do que os signos, que remetem a um significado próprio. “Não se pintam significados”. 

Porém, um escritor de prosa invariavelmente trabalha com os significados – e por isso as suas palavras agem no mundo. “A palavra é ação”, afirma Sartre, “[o escritor ‘engajado’] sabe que desvendar é mudar e que não se pode desvendar senão tencionando mudar”. Sartre afirma que as palavras são “pistolas carregadas” que quando falamos, atiramos. Uma vez que livremente tenhamos nos decidido por usar das palavras, assumimos também a responsabilidade pelas consequências de nossas palavras. Ainda a respeito do poder da palavra, o filósofo existencialista André Barata, em sua leitura sobre a temática da palavra literária, também esclarece que “a literatura, a palavra literária, não é simplesmente signo, instrumento de qualquer coisa que não ela. [...] Antes substitui o real na qualidade de ela mesma ser realidade a ser representada [...] a literatura tem valor de realidade”.

Por isso, Sartre atentou para a responsabilidade do escritor para/com as suas palavras, posto que suas palavras agem no mundo. Mesmo um escritor medíocre deve se perguntar “o que aconteceria se todo o mundo lesse o que eu escrevo?”. No caso do livro de McGinniss, que, de acordo com o entendimento de seu entrevistado-protagonista, se trata de uma ficção apresentada como não-ficção, as inverdades foram tomadas como verdades e as suposições, como fatos. Afinal, tal como nos atentou André Barata , é justamente “a literatura com valor e pretensão de realidade” que possui o maior potencial para agir e modificar o mundo. Dessa forma, a reivindicada liberdade de expressão dos comunicólogos deve ser analisada sob o prisma das circunstâncias que envolvem o ato de comunicar.


A LIBERDADE DE EXPRESSÃO SITUADA: OS COMPROMISSOS DE UM JORNALISTA 


“Liberdade, deixe as asas abertas sobre nós.” Essa frase foi o lema do IV Congresso Brasileiro de Publicidade, ocorrido em 2008 e motivado por diversos projetos de leis que tramitam no Congresso Nacional visando restringir as campanhas publicitárias. Na época, os publicitários argumentavam que não havia motivos para impor restrições às “comunicações mercadológicas”, posto que elas não causavam mal nenhum ao seu público-alvo. “O IV Congresso denuncia e repudia: a) todas as iniciativas de censura à liberdade de expressão comercial, inclusive as bem-intencionadas”. Diversos são os movimentos que, tal como o IV Congresso Brasileiro de Publicidade, defendem que a liberdade de expressão nos meios midiáticos devem ser irrestritas e que a mídia não pode ser responsabilizada pelas diversas influências negativas que suas mensagens possam causar no público. 

É fato que, conforme o comunicólogo Martín-Barbero pontua bem em seus trabalhos, o receptor das mensagens não é um ser passivo e ilhado, pronto para ser facilmente corruptível, porém um ser em sociedade e com uma história pessoal, elementos que influenciam na decodificação das mensagens que recebe. No entanto, não podemos esquecer que, tal como Jean Paul-Sartre coloca bem em sua filosofia da liberdade, “ser livre é ser responsável”, ou seja, ter liberdade para comunicar da forma que quiser o que quiser implica numa responsabilidade pelas consequências dos seus atos. 

A liberdade defendida por Sartre  é uma liberdade absoluta e a responsabilidade atribuída ao homem é total. A liberdade é sinônimo de compromisso com a liberdade dos outros. Ser livre é estar lançado no mundo, responsável por tudo aquilo que se faz. 

Sendo assim, o homem sartreano é aquele que escolhe livremente, que cria a si mesmo. No entanto, ao surgir o outro, esse homem que escolhe identifica no outro um limite à sua liberdade; o outro é um problema, pois nos impede de fazer o que desejamos. Somos tão responsáveis pelo outro como o somos por nós mesmos. A minha liberdade depende da liberdade dos outros, pois o homem existe em comunicação com os outros, como historicidade profunda. Ser-no-mundo e ser-com-os-outros é o existencial humano, posto que a liberdade exige a responsabilidade de cuidar do mundo e dos outros. É esse o ponto inicial da moral sartreana: o fato de nos sermos responsáveis por nossa liberdade. Para Sartre, a responsabilidade é tão absoluta e esmagadora como a liberdade. Assim como a liberdade, a responsabilidade também se situa numa moral de situação e de atividade: em cada situação há um ato novo. Estamos exercendo constantemente liberdade e responsabilidade. 

Considerando-se, portanto, que a noção de liberdade não exclui a responsabilidade pelo que se faz, o importante é realmente se comunicar, independentemente do conteúdo? A comunicação pode ser exercida de maneira livre? 

De fato, nenhuma liberdade pode ser tomada como uma liberdade no sentido mais amplo do termo, pois sempre será necessário observar o próximo, para que ele também possa fazer as suas escolhas de forma livre. Tal como nos lembra Paulo Perdigão, “a liberdade humana está na autonomia da escolha. Não consiste em poder fazer o que se quer, mas em querer fazer o que pode.”

Uma vez que o homem seja livre – e, segundo Sartre, todos os homens o são – ele se torna responsável por tudo aquilo que se faz, pelas consequências dos seus atos – e essa responsabilidade, assim como a liberdade, nenhum homem pode abdicar. 

Ao ler o livro de Janet Malcolm, tive clareza de que ela atentou para pelos menos três compromissos indissolúveis do escritor de não ficção: compromisso para/com a verdade, compromisso para/com as pessoas envolvidas (personagens), compromisso para/com os leitores. Esses compromissos, que atravessam-se mutuamente, remetem a ética necessária ao jornalista. 

Uma vez que, como já mencionado anteriormente, o escritor de não ficção possui, de antemão, um crédito maior dos leitores, que esperam ali encontrar relatos fieis aos fatos, “o escritor de não ficção tem que ser meticuloso na entrega da mercadoria pela qual o leitor pagou adiantado com a sua indulgência.” Em um trabalho feito a partir de entrevistas, é evidente a necessidade de adaptação das falas dos entrevistados a fim de tornar a leitura mais fluida. A esse respeito, Janet Malcolm afirma que 

Quando um jornalista se propõe a citar alguém a partir de uma entrevista gravada, ele tem para com o entrevistado, não menos que o leitor, o dever de traduzir a fala para a prosa. Só um jornalista muito pouco piedoso (ou muito impotente) mantém as palavras literais do entrevistado e deixa de fazer aquela espécie de edição e reescritura que, na vida real, os nossos próprios ouvidos fazem automática e instantaneamente. 


No entanto, a necessidade de adaptação do conteúdo falado para o conteúdo escrito não oferece ao jornalista a possibilidade de manipulação das informações. Tal como o comunicólogo Philippe Breton defendeu em seu livro “A manipulação da palavra”, as técnicas de argumentação não são equivalentes das técnicas de manipulação. Enquanto o uso das técnicas de argumentação consiste em apresentar as informações ao seu interlocutor de forma que ele tenha condições de analisar mais amplamente a situação, as técnicas de manipulação consistem na “redução mais completa possível da liberdade de o público discutir ou de resistir ao que lhe é proposto”. As informações a serem transmitidas são trabalhadas de tal forma que conduza o leitor ao erro ao mesmo tempo em que não deixa espaço para a dúvida da veracidade da informação. 

Ainda a respeito das técnicas literárias utilizadas pelos escritores de não ficção, Janet Malcolm considera que “a tarefa relativamente menor de traduzir do gravadorês para a nossa língua e a importante responsabilidade da citação fidedigna não são de modo algum antagônicas; de fato [...] elas são, de maneira fundamental e decisiva, complementares.” Podemos compreender essa afirmação da seguinte maneira: uma vez que o compromisso do jornalista em um trabalho de não ficção é para com os personagens, a verdade e os leitores, algumas vezes é necessário fazer ajustes na palavra falada para que, escrita, ela ainda tenha a mesma coerência, coesão e impacto que teve quando falada, de forma que o significado da mensagem a ser passada seja mais facilmente compreendido e sem perder, é claro, a “integridade essencial” dos fatos, tal como diriam os advogados de MacDonald.





Referências bibliográficas
IV Congresso Brasileiro de Publicidade. Tese Geral do IV Congresso Brasileiro de Publicidade. 16 de julho de 2008. Disponível em: . Acesso em: 28 abril 2011.

BARATA, André. A literatura como escolha filosófica. In: Les siècles de Sartre, um philisophe dans La literature. [s.l.] : 2005.

BRETON, Philippe. A manipulação da palavra. São Paulo: Editora Loyola, 1999.

Comissão de Liberdade de Expressão Comercial do IV Congresso. Liberdade, deixe as asas abertas sobre nós! 2008. Disponível em: , acesso em 12 de dezembro de 2008.

MARTÍN-BARBERO, Jesús. América Latina e os anos recentes: o estudo da recepção em comunicação social. IN: SOUSA, Mauro Wilton (org.). Sujeito, o lado oculto do receptor. São Paulo: Editora Brasileinse, 1995.

SARTRE, Jean-Paul. O Ser e o Nada. Ensaio de ontologia fenomenológica.  16 ed. Petrópolis: Vozes, 2008.

________________. Que é a literatura. Tradução de Carlos Felipe Moisés. São Paulo: Ed. Ática, 2004.

_________________. O existencialismo é um humanismo in O existencialismo é um humanismo; A imaginação; Questão de método. São: Paulo: Abril Cultural, 1978.

MALCOLM, Janet. O jornalista e o assassino: uma questão de ética. São Paulo: Companhia das Letras, 2011.




quarta-feira, 14 de setembro de 2011

"O jornalista e o assassino", de Janet Malcolm


Juro, no exercício das funções de meu grau, assumir meu compromisso com a verdade e com a informação. Juro empenhar todos os meus atos e palavras, meus esforços e meus conhecimentos para a construção de uma nação consciente de sua história e de sua capacidade. Juro, no exercício do meu dever profissional, não omitir, não mentir e não distorcer informações, não manipular dados e, acima de tudo, não subordinar em favor de interesses pessoais o direito do cidadão à informação.



A  citação de abertura deste post, o juramento dos profissionais de jornalismo, traz em seu bojo o ideal de integridade para com a verdade, a informação e os cidadãos que todo jornalista deve seguir. A princípio, a tarefa parece ser simples: basta “não omitir, não mentir e não distorcer informações, não manipular dados e, acima de tudo, não subordinar em favor de interesses pessoais o direito do cidadão à informação”. Entretanto, a prática da profissão mostra que nem sempre é tão simples trazer verdades sem manipulações e sem ferir o direito à informação. 

“A” verdade nem sempre está tão evidente; algumas vezes ela nem pode ser encontrada. Veja, por exemplo, o caso de um culpado por crime de assassinato não confesso e sem testemunhas. Alguém morreu – isso é um fato. Sob quais circunstâncias? Sendo um crime sem testemunhas, é imprescindível a investigação, que analisará prováveis vestígios e possíveis autores do crime (atente para os prováveis e possíveis, por favor). Aquele suspeito que tiver maior probabilidade de ser o culpado será julgado por um júri de cidadãos comuns, que ouvirão tanto os argumentos da defesa quanto da acusação e decidirão (por totalidade dos votos) pelo veredicto final. O júri decide pela punição do réu. Crime julgado, réu, culpado, assassino, condenado – mesmo alegando a sua inocência. Seria esse réu realmente culpado? Não temos como afirmar categoricamente que sim ou que não. Tal como Sartre nos mostra, “o ser de um existente é exatamente o que o existente aparenta. [...] O que o fenômeno é, é absolutamente, pois se revela como é. Pode ser estudado e descrito como tal, porque é absolutamente indicativo de si mesmo. [...] Tudo está em ato.” Se utilizarmos essa linha de pensamento para analisarmos o exemplo em questão, teremos clareza de que somente podemos afirmar categoricamente que o réu foi condenado por um crime, sem podermos utilizar da mesma certeza para analisarmos se a condenação, no que se refere a autoria do crime, foi justa ou não, uma vez que não podemos ter acesso a esse fenômeno (o ato criminoso) senão através de abstrações. 

Imagine, agora, a seguinte situação: esse mesmo réu contrata um jornalista para escrever a sua biografia e dá acesso total a todas as pessoas e informações referentes a sua vida (inclusive, é claro, as referentes ao assassinato). O jornalista torna-se parte observadora de todas as discussões sobre a defesa do réu, bem como acaba por se tornar uma pessoa íntima do réu. Compartilham muitos momentos informais juntos, trocam cartas pessoais durante quatro anos. O jornalista se diz pessoalmente abalado pela condenação injusta do réu. Eis que é publicada a biografia tão aguardada (pelo público e pelo réu): doutor MacDonald “é um ser muito doente”, um “narcisista patológico” que matou sua esposa e suas duas filhas à sangue frio. Esta é a história real relatada pela jornalista norte-americana Janet Malcolm em seu livro “O jornalista e o assassino – uma questão de ética” (2011), no qual a autora busca abordar, com o máximo de compromisso para com os fatos, a ética jornalística a partir do processo movido pelo doutor MacDonald contra seu biógrafo Joe McGuiniss, por faltar com a “integridade essencial” da sua biografia. MacDonald sustentou durante o processo judicial que seu biógrafo usou de mentiras para ter acesso a informações sobre a sua vida que foram destorcidas de forma a concluir categoricamente que ele havia assassinado a sua família – uma ideia que ele sempre afirmou ser mentirosa. 



REVELAR A VERDADE OU CRIAR A VERDADE? 


Voltando ao juramento de colação de grau dos jornalistas, vemos que os jornalistas se comprometem a ter uma conduta íntegra durante a condução do seu trabalho em busca da verdade. Para a também jornalista Janet Malcom, essa tarefa certamente é fadada ao fracasso, posto que “qualquer jornalista que não seja demasiado obtuso ou cheio de si para perceber o que está acontecendo sabe que o que ele faz é moralmente indefensável”. Isso porque, na concepção da autora (e também jornalista), os jornalistas (sobretudo os biógrafos) dificilmente estão interessados na pessoa sobre quem escrevem, o interesse (e compromisso) deles é resguardado aos personagens e histórias que estão construindo. 

Nem sempre a vida tal como ela é se faz atraente quando posta em uma folha de papel; às vezes é necessário usar certas artimanhas literárias para fazer os fatos ganharem a graça de uma ficção. Wambaugh, escritor de não ficção entrevistado por Janet Malcolm, chama a isso propriamente de escrever em “estilo romanceado”, dando vida aos personagens. A partir desse momento em que se decide dar vida aos personagens, o foco do trabalho do jornalista é não permitir que o entrevistado-personagem atrapalhe o término do trabalho, ainda que seja preciso deixar que o entrevistado-personagem se iluda sobre a natureza da relação jornalista-entrevistado (ou amigo-amigo, como alguns jornalistas fazem parecer e muitos entrevistados acreditam) e sobre as reais intenções do jornalista (um livro redentor ou um livro acusador?). Tudo isso respaldado no compromisso com a verdade que o público “tem o direito de saber”. 

Para alcançar essa verdade, os jornalistas tentam desvelar a essência oculta dos fenômenos através de diversas interpretações dos fenômenos que aparecem a eles. Porém, é interessante lembrar mais uma vez que, conforme nos mostra Sartre, “a” verdade é aquela que se desvela em sua própria aparição, e não algo a ser desvelado por trás da aparência. O homem, entretanto, é livre para fazer o que quiser, inclusive para buscar a essência por trás das aparências, se assim o desejar. De fato, não podemos esquecer que o fazemos constantemente ao ler um romance, por exemplo, onde estamos sempre buscando interpretar aquelas palavras escritas no papel que, a princípio, revelam as suas essências por si próprias. Janet Malcolm reproduziu em seu livro um trecho da transcrição do julgamento de McGinniss que ilustra bem essa ideia, no qual o jornalista é interrogado pelo advogado de defesa de MacDonald sobre as suas intenções para/com MacDonald: 

P: O senhor disse ontem... considerando as cartas dos primeiros seis ou nove meses após o julgamento, [que] nunca teve a intenção de enganá-lo... Depois dos primeiros seis ou nove meses, o senhor tinha a intenção de enganá-lo?
R: Bom, houve um momento, certamente, em que eu passei a estar disposto a deixar que ele continuasse acreditando no que queria, de maneira que ele não tentasse me impedir de terminar o meu trabalho, sim, senhor.
P: Então a resposta é sim?
R: Suponho que a resposta possa ser interpretada desse modo.
P: Por alguém que lesse as cartas por exemplo.
R: Bom, estou certo de que o senhor as interpretaria assim. Não sei... outras pessoas poderiam interpretá-las de outro modo.
A liberdade de cada um é um dos principais motivos das inúmeras percepções distintas sobre um mesmo texto. Entretanto, o jornalista que defina o seu trabalho como inteiramente compromissado com a verdade e, no entanto, utilize de sua própria imaginação para encontrá-lo recai no erro que Nietzsche já nos alertava sobre “a ilusão dos trás-mundo”. O compromisso, neste caso, está mais para/com a sua própria liberdade do que com a verdade. Contudo, isso não significa dizer que a história tal como contada pelo jornalista seja necessariamente mentirosa, caluniosa, tal como doutor MacDonald sustentou em seu processo contra o seu biógrafo McGinniss. “A essência da mentira, de fato, implica que o mentiroso esteja completamente a par da verdade que esconde”, afirma Sartre. No caso de McGinniss, ele não tinha o total conhecimento dos fatos referentes ao assassinato pelo qual MacDonald foi condenado. Tal como foi revelado em outra transcrição do mesmo julgamento, ele não pôde falar com ninguém que afirmasse saber quem foi o autor do crime, posto que as vítimas estavam mortas e MacDonald afirmava não ser ele, porém McGinniss sabia, “em seu coração”, que MacDonald havia cometido o assassinato. 

Entretanto, McGinniss parece ter se esquecido que é justamente na diferença entre expor fatos e imaginar fatos que residem os gêneros literários de ficção e não-ficção. Janet Malcolm lembra no pósfacio de seu livro que “o escritor de ficção tem direito a mais privilégios”. Por ser uma história inventada e que é apresentada como tal, ele possui plena liberdade para fazer dela o que quiser. Já o escritor de não-ficção, tal como McGinniss, “tem com o leitor um contrato que o obriga a limitar-se a eventos que ocorreram de fato e às personagens que tenham equivalentes na vida real, e que não permite que ele enfeite a verdade sobre tais eventos ou personagens.”. Caso o escritor de não-ficção se distancie muito dos fatos, ele pode acabar cometendo um “assassinato da alma”, tal como MacDonald colocou em seu julgamento.

A temática “ética nos meios de comunicação” costuma sempre ser palco para grandes debates. De um lado, há aqueles profissionais da área que defendem o uso de meios eticamente condenáveis para chegar ao seu fim, tal como McGuinnis, que justificou ter deixado o seu entrevistado, contratante e protagonista se enganar a respeito das suas verdadeiras intenções (quando não o conduziu ao erro) objetivando “chegar até a verdade, com o propósito de contar uma história coerente”. De outro lado, há aqueles profissionais de comunicação que, mesmo sabendo que o seu trabalho envolve essencialmente algumas condutas “moralmente indefensáveis”, como afirma Janet Malcolm, tal como o de construir uma relação de confiança com o entrevistado para que ele lhe conte a sua vida e depois simplesmente sumir, tentam agir da melhor forma possível visando causar danos menores. 

O livro de Janet Malcolm nos colocou dentro desse cenário da melhor forma possível: partindo de um processo judicial inédito nos Estados Unidos onde um personagem, criminalmente condenado, processou o seu biógrafo por fraude e quebra de contrato, subsidiando-se nas inúmeras cartas que atestavam que a “integridade essencial” da biografia (uma das cláusulas presentes no contrato profissional entre MacDonald e McGuinniss) seria mantida – leia-se: que a alegada inocência de MacDonald seria preservada. Através de diversos relatos de fatos e transcrições de documentos, temos acesso às justificativas dadas pelos profissionais para permitir algumas atitudes antiéticas, o impacto que as palavras dos jornalistas causam nos seus leitores e a ética presente na relação jornalista-entrevistado(personagem). 

A grande questão que o livro de Janet Malcolm nos deixa no final é como o jornalista pode realizar o seu trabalho de maneira ética, sem precisar manipular os entrevistados-personagens, os leitores e a informação. Alguém se arriscar a esboçar uma resposta?