Continuando a resenha do livro "O jornalista e o assassino", de Janet Malcom
Palavra ação
A leitura do livro de Janet Malcolm deixa claro que, após o lançamento da biografia de MacDonald, muitas pessoas passaram a ter uma opinião absolutamente negativa sobre ele baseada exclusivamente nas palavras de McGuinnis. Algumas dessas pessoas chegavam mesmo a expressar as suas opiniões para o próprio MacDonald, através de cartas enviadas ao seu endereço na penitenciária. Em uma dessas cartas, reproduzida integralmente no livro de Janet Malcolm, o autor afirmava que, após ler o livro, tinha certeza de que MacDonald era “culpado”, “louco”, “tão doente, demente e sórdido”, “mentiroso de proporções ultrajantes”, “um lixo”, “um homossexual latente”, “veado impotente” e “maníaco pervertido”. Janet Malcolm teve oportunidade de conversar com MacDonald a respeito desse tipo de correspondência que ele recebeu diversas vezes enquanto durou o sucesso do livro e MacDonald afirmou que
Isso faz parte do impacto negativo do livro de McGinniss. As pessoas que o leram acham que me conhecem, que entraram na minha cabeça. É nisso que está a maldade – não conheço outra palavra – do roteiro fabricado por ele [McGinniss]. Ele o moldou muito bem, e parece ser muito profundo. Mas ele estava moldando os fatos para adequá-los a uma opinião. Não estava moldando a opinião dele para adequá-las aos fatos.
MacDonald apontou para um importante fato nesta fala: o impacto das palavras escritas no imaginário social. Um roteiro de um livro possui um poder de impacto muito maior sobre as pessoas do que uma pintura ou música sobre a mesma temática. Tal como Sartre nos lembra em seu texto “Que é a literatura”, trabalhar com palavras é bem diferente que trabalhar com cores e sons, posto que esses não são signos, ou seja, “não remetem à nada que lhes seja exterior”. Ainda que fosse feita uma representação imagética do julgamento de MacDonald, o autor desse quadro continuaria sendo “mudo”, para usar uma analogia de Sartre, ele nos apresentaria ao julgamento, mas teríamos uma abertura muito maior para interpretarmos aquela imagem do que os signos, que remetem a um significado próprio. “Não se pintam significados”.
Porém, um escritor de prosa invariavelmente trabalha com os significados – e por isso as suas palavras agem no mundo. “A palavra é ação”, afirma Sartre, “[o escritor ‘engajado’] sabe que desvendar é mudar e que não se pode desvendar senão tencionando mudar”. Sartre afirma que as palavras são “pistolas carregadas” que quando falamos, atiramos. Uma vez que livremente tenhamos nos decidido por usar das palavras, assumimos também a responsabilidade pelas consequências de nossas palavras. Ainda a respeito do poder da palavra, o filósofo existencialista André Barata, em sua leitura sobre a temática da palavra literária, também esclarece que “a literatura, a palavra literária, não é simplesmente signo, instrumento de qualquer coisa que não ela. [...] Antes substitui o real na qualidade de ela mesma ser realidade a ser representada [...] a literatura tem valor de realidade”.
Por isso, Sartre atentou para a responsabilidade do escritor para/com as suas palavras, posto que suas palavras agem no mundo. Mesmo um escritor medíocre deve se perguntar “o que aconteceria se todo o mundo lesse o que eu escrevo?”. No caso do livro de McGinniss, que, de acordo com o entendimento de seu entrevistado-protagonista, se trata de uma ficção apresentada como não-ficção, as inverdades foram tomadas como verdades e as suposições, como fatos. Afinal, tal como nos atentou André Barata , é justamente “a literatura com valor e pretensão de realidade” que possui o maior potencial para agir e modificar o mundo. Dessa forma, a reivindicada liberdade de expressão dos comunicólogos deve ser analisada sob o prisma das circunstâncias que envolvem o ato de comunicar.
A LIBERDADE DE EXPRESSÃO SITUADA: OS COMPROMISSOS DE UM JORNALISTA
“Liberdade, deixe as asas abertas sobre nós.” Essa frase foi o lema do IV Congresso Brasileiro de Publicidade, ocorrido em 2008 e motivado por diversos projetos de leis que tramitam no Congresso Nacional visando restringir as campanhas publicitárias. Na época, os publicitários argumentavam que não havia motivos para impor restrições às “comunicações mercadológicas”, posto que elas não causavam mal nenhum ao seu público-alvo. “O IV Congresso denuncia e repudia: a) todas as iniciativas de censura à liberdade de expressão comercial, inclusive as bem-intencionadas”. Diversos são os movimentos que, tal como o IV Congresso Brasileiro de Publicidade, defendem que a liberdade de expressão nos meios midiáticos devem ser irrestritas e que a mídia não pode ser responsabilizada pelas diversas influências negativas que suas mensagens possam causar no público.
É fato que, conforme o comunicólogo Martín-Barbero pontua bem em seus trabalhos, o receptor das mensagens não é um ser passivo e ilhado, pronto para ser facilmente corruptível, porém um ser em sociedade e com uma história pessoal, elementos que influenciam na decodificação das mensagens que recebe. No entanto, não podemos esquecer que, tal como Jean Paul-Sartre coloca bem em sua filosofia da liberdade, “ser livre é ser responsável”, ou seja, ter liberdade para comunicar da forma que quiser o que quiser implica numa responsabilidade pelas consequências dos seus atos.
A liberdade defendida por Sartre é uma liberdade absoluta e a responsabilidade atribuída ao homem é total. A liberdade é sinônimo de compromisso com a liberdade dos outros. Ser livre é estar lançado no mundo, responsável por tudo aquilo que se faz.
Sendo assim, o homem sartreano é aquele que escolhe livremente, que cria a si mesmo. No entanto, ao surgir o outro, esse homem que escolhe identifica no outro um limite à sua liberdade; o outro é um problema, pois nos impede de fazer o que desejamos. Somos tão responsáveis pelo outro como o somos por nós mesmos. A minha liberdade depende da liberdade dos outros, pois o homem existe em comunicação com os outros, como historicidade profunda. Ser-no-mundo e ser-com-os-outros é o existencial humano, posto que a liberdade exige a responsabilidade de cuidar do mundo e dos outros. É esse o ponto inicial da moral sartreana: o fato de nos sermos responsáveis por nossa liberdade. Para Sartre, a responsabilidade é tão absoluta e esmagadora como a liberdade. Assim como a liberdade, a responsabilidade também se situa numa moral de situação e de atividade: em cada situação há um ato novo. Estamos exercendo constantemente liberdade e responsabilidade.
Considerando-se, portanto, que a noção de liberdade não exclui a responsabilidade pelo que se faz, o importante é realmente se comunicar, independentemente do conteúdo? A comunicação pode ser exercida de maneira livre?
De fato, nenhuma liberdade pode ser tomada como uma liberdade no sentido mais amplo do termo, pois sempre será necessário observar o próximo, para que ele também possa fazer as suas escolhas de forma livre. Tal como nos lembra Paulo Perdigão, “a liberdade humana está na autonomia da escolha. Não consiste em poder fazer o que se quer, mas em querer fazer o que pode.”
Uma vez que o homem seja livre – e, segundo Sartre, todos os homens o são – ele se torna responsável por tudo aquilo que se faz, pelas consequências dos seus atos – e essa responsabilidade, assim como a liberdade, nenhum homem pode abdicar.
Ao ler o livro de Janet Malcolm, tive clareza de que ela atentou para pelos menos três compromissos indissolúveis do escritor de não ficção: compromisso para/com a verdade, compromisso para/com as pessoas envolvidas (personagens), compromisso para/com os leitores. Esses compromissos, que atravessam-se mutuamente, remetem a ética necessária ao jornalista.
Uma vez que, como já mencionado anteriormente, o escritor de não ficção possui, de antemão, um crédito maior dos leitores, que esperam ali encontrar relatos fieis aos fatos, “o escritor de não ficção tem que ser meticuloso na entrega da mercadoria pela qual o leitor pagou adiantado com a sua indulgência.” Em um trabalho feito a partir de entrevistas, é evidente a necessidade de adaptação das falas dos entrevistados a fim de tornar a leitura mais fluida. A esse respeito, Janet Malcolm afirma que
Quando um jornalista se propõe a citar alguém a partir de uma entrevista gravada, ele tem para com o entrevistado, não menos que o leitor, o dever de traduzir a fala para a prosa. Só um jornalista muito pouco piedoso (ou muito impotente) mantém as palavras literais do entrevistado e deixa de fazer aquela espécie de edição e reescritura que, na vida real, os nossos próprios ouvidos fazem automática e instantaneamente.
No entanto, a necessidade de adaptação do conteúdo falado para o conteúdo escrito não oferece ao jornalista a possibilidade de manipulação das informações. Tal como o comunicólogo Philippe Breton defendeu em seu livro “A manipulação da palavra”, as técnicas de argumentação não são equivalentes das técnicas de manipulação. Enquanto o uso das técnicas de argumentação consiste em apresentar as informações ao seu interlocutor de forma que ele tenha condições de analisar mais amplamente a situação, as técnicas de manipulação consistem na “redução mais completa possível da liberdade de o público discutir ou de resistir ao que lhe é proposto”. As informações a serem transmitidas são trabalhadas de tal forma que conduza o leitor ao erro ao mesmo tempo em que não deixa espaço para a dúvida da veracidade da informação.
Ainda a respeito das técnicas literárias utilizadas pelos escritores de não ficção, Janet Malcolm considera que “a tarefa relativamente menor de traduzir do gravadorês para a nossa língua e a importante responsabilidade da citação fidedigna não são de modo algum antagônicas; de fato [...] elas são, de maneira fundamental e decisiva, complementares.” Podemos compreender essa afirmação da seguinte maneira: uma vez que o compromisso do jornalista em um trabalho de não ficção é para com os personagens, a verdade e os leitores, algumas vezes é necessário fazer ajustes na palavra falada para que, escrita, ela ainda tenha a mesma coerência, coesão e impacto que teve quando falada, de forma que o significado da mensagem a ser passada seja mais facilmente compreendido e sem perder, é claro, a “integridade essencial” dos fatos, tal como diriam os advogados de MacDonald.
Referências bibliográficas
IV Congresso Brasileiro de Publicidade. Tese Geral do IV Congresso Brasileiro de Publicidade. 16 de julho de 2008. Disponível em:
BARATA, André. A literatura como escolha filosófica. In: Les siècles de Sartre, um philisophe dans La literature. [s.l.] : 2005.
BRETON, Philippe. A manipulação da palavra. São Paulo: Editora Loyola, 1999.
Comissão de Liberdade de Expressão Comercial do IV Congresso. Liberdade, deixe as asas abertas sobre nós! 2008. Disponível em:
MARTÍN-BARBERO, Jesús. América Latina e os anos recentes: o estudo da recepção em comunicação social. IN: SOUSA, Mauro Wilton (org.). Sujeito, o lado oculto do receptor. São Paulo: Editora Brasileinse, 1995.
SARTRE, Jean-Paul. O Ser e o Nada. Ensaio de ontologia fenomenológica. 16 ed. Petrópolis: Vozes, 2008.
________________. Que é a literatura. Tradução de Carlos Felipe Moisés. São Paulo: Ed. Ática, 2004.
_________________. O existencialismo é um humanismo in O existencialismo é um humanismo; A imaginação; Questão de método. São: Paulo: Abril Cultural, 1978.
MALCOLM, Janet. O jornalista e o assassino: uma questão de ética. São Paulo: Companhia das Letras, 2011.
